terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Histórias da Serra II

A pobreza e a esperança são mãe e filha. Ao se entreter com a filha, esquece-se da mãe.
( Jean Paul )


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Descendo a íngreme encosta da serra, por uma estreita  vereda, vergada pelo peso do molho de mato, descia vagarosamente uma jovenzinha. A saia desbotada e passajada em vários locais denotava que, quando chegou pela primeira vez ao seu corpo, já tinha passado pelo corpo das  duas  irmãs mais velhas. O avental cobria a maior parte da frente da saia evitando assim que ela se sujasse. Quase não podia com o molho e, de quando em quando, os pés  escorregavam nas chinelas, ainda grandes para o seu pé, fazendo-a desequilibrar-se. Teve  que  agarrar com uma das mãos o mato que ladeava o caminho e, com a outra, o gancho da corda para  não cair, nem deixar cair o molho.
Chegada a um  poiso, depositou o molho e sentou-se em cima duma laje mais lisa,  cansada e com as pernas a  tremer devido à descida íngreme, que fizera até ali chegar.
Ao longe, ouvia-se o tilintar das campainhas e dos chocalhos do rebanho que as irmãs tinham a pastar junto à  courela da ribeira, onde ceifavam erva.
Do outro lado da ribeira,   descortinava-se  o fumo que saía das lajes duma palheira, onde a mãe fazia o almoço. Sentiu fome. Meteu as mãos na algibeira do avental e, tirou um pedaço de broa que devorou avidamente, pois comera apenas umas sopas de café com broa migada, ainda era de alpardo.
O tempo era de extrema pobreza e na aldeia passava-se mal. No ano anterior tinha havido seca e a produção agrícola fora diminuta. A guerra eclodira na Europa e  reflectia-se na vida de todos. O pai que migrara para Lisboa, nem todos os dias conseguia arranjar trabalho. Não havia contratos e trabalhava-se ao dia. O que ganhava nuns dias  mal dava para se alimentar nos outros.
A vida era pesada para aquela jovem. Ali sentada, pensava que um dia aquela vida teria o seu fim. Como ela gostava de poder estar naquela altura a brincar com as amiguinhas, ou então na escola que tivera que abandonar, para ajudar a famíla nos trabalhos agrícolas. Mas, pensava ela que, um dia apareceria um príncipe encantado que casaria com ela e a levaria para Lisboa. Ah pois! Não queria uma vida como da  mãe que ficara na aldeia, enquanto outras mulheres seguiram os seus maridos e, quando regressavam à aldeia, pareciam umas senhoras...
Retemperadas as forças,  pegou no molho à cabeça e  seguiu envolta nos seus pensamentos a caminho do curral, trauteando a cantiga:

Meninas vamos ao vira
Ai que o vira é coisa boa
Eu já vi dançar o vira
Ai, às meninas de Lisboa







Obrigada pela sua visita. Volte sempre.

7 comentários:

Luis disse...

Amiga Maria de Lourdes,
Linda estória que fez recordar tempos da minha infância. Nessa altura Lisboa e Porto eram cidades que aliciavam os jóvens. Por vezes não conseguiam ser felizes nessas novas vidas, outras acontecia atingirem o que pretendiam. A vida para uns é Mãe para outros é Madrasta!
Gostei do que li e voltarei mais vezes.
Um beijinho amigo.

alfacinha disse...

Não percebi" o peso do molho do mato "O que significa ?
cumprimentos

M. Lourdes disse...

Amigo úís agradeço a visita e o comentário. É verdade o que escreveu. Muitos conseguiram singrar na vida, outros tiveram que regresar às suas aldeias pois nunca se adaptaram à grande cidade.
Volte sempre, é com carinho que o receberei neste meu cantinho.
Beijinhos

M. Lourdes disse...

Alfacinha
Vou tentar explicar:
"Mato"- são plantas rasteiras que se cortam para colocar no chão das habitações dos animais (currais).
"Molho de mato"- é uma grande quantidade dessas plantas que se juntam e atam com uma corda para melhor se transportarem.
A frase "vergada pelo peso do molho do mato" quer dizer que as plantas eram muitas e pesadas o que fazia com que a jóvem tivesse que andar inclinada. Penso que para um belga isto é um pouco complicado pois, alguns termos são usados naquela região e até são desconhecidos de alguns portugueses.
No próximo post, vou tentar explicar melhor, mas pergunte sempre que tiver dúvidas.
Beijinhos

Joaquim Angelo disse...

D Lourdes: a Nossa geração conhece bem as origens da sua historia, sua historia, porque na minha Aldeia Telhado,também era com essa matéria prima que se alimentavam os fornos de coser a loiça de barro.Bjs.

FERNANDA & POEMAS disse...

OLÁ BELISSÍMO TEXTO ADOREI ESTE ESPAÇO---PARABENS.
ABRAÇOS DE CSARINHO,
FERNANDINHA

alfacinha disse...

Obrigado por explicar, tinha de pensar a molho de chaves ou molho de ramas, aliás a menina fez um trabalho útil para que assim a mata ficasse à prova do fogo e limpa.
cumprimentos