segunda-feira, 5 de abril de 2010

Figuras da Serra: O Padeiro

A fome está para a comida como o entusiasmo para a vida.
(Bertrand Russell)

Mais uma Páscoa se passou na minha aldeia e os rituais cumpriram-se ao sabor da era moderna mas, tentando seguir um pouco da tradição dos nossos antepassados.
Longe  vão os tempos em que muitos padrinhos ofereciam aos seus afilhados como folar, um simples pão de trigo.
Na primeira metade do século passado, o pão que servia de  base na alimentação das populações serranas da freguesia de Pomares era feito com farinha de milho.  Era esse o cereal que melhor condições de cultivo encontrava na região e, raramente, se comia um "trigo" que  era considerado uma autêntica guloseima e, por essa razão, uma bela prenda, sempre muito bem recebida.
Quando eu era criança não gostava nada de pão de milho. Criada em Lisboa, os meses de Verão que passava na aldeia eram maravilhosos em tudo, menos no pão. Lembro-me bem da alegria que sentia quando, de longe em longe, apareciam no Sobral Magro as padeiras do Piódão, que cruzavam a serra, trazendo grandes cestos à cabeça, devidamente cobertos com um pano branco, carregados com pão de trigo. Passavam pela minha aldeia e seguiam de terra em terra, tentando vender o pão que poucos podiam comprar. Nesses dias, a minha avó lá me comprava uns papo-secos com que eu matava saudades do pão da cidade.
Para além das padeiras, havia também um padeiro, que vinha com o seu macho carregando os cestos do pão, como se pode observar na foto seguinte, tirada na aldeia da Sorgaçosa, também da freguesia de Pomares.

- Sorgaçosa: O padeiro -
(Foto: Helena Afonso)

Actualmente, já poucas pessoas fazem a tradicional broa de milho e, o pão com que   a população das localidades serranas  se alimenta é  quase exclusivamente o pão de trigo, que chega a cada aldeia transportado em carrinhas próprias, quer pela padeira de Avô, quer pelo padeiro de Aldeia das Dez.


- A padeira de Avô, há alguns anos atrás -



Obrigada pela sua visita. Volte sempre.

5 comentários:

poetaeusou . . . disse...

*
que saudades
do pão de trigo,
sem mistura de arroz . . .
srsrsr
,
conchinhas, ficam,
,
*

Pitanga Doce disse...

Os meus meninos ainda conheceram o pão de milho feito pela avó da Beira Alta. Depois vieram os papos secos que lá também eram bem conhecidos. Agora o mais gostoso são os pãezinhos de mistura: trigo e centeio. Nas aldeias ainda vão as carrinhas. Pão é sempre bom!

Parabéns pelo aniverário que ainda virá. Ariana, hein?

José Pinto disse...

A minha madrinha também me dava uma carcaça de trigo pela Páscoa. O folar incluía, normalmente, umas broinhas doces e um lenço da mão novo. Vinha tudo acondicionado numa saca de pano que eu, depois, devolvia. Que bem me sabiam aquelas lascas de trigo branquinhas que eu logo esfarrapava!
Já não há trigo daquele!

Flora Maria disse...

Oi, Lourdes:
Meu pai sempre falava isso: nas aldeias o pão era de milho, e o de trigo era caro e muito valorizado.

Morando no Rio de Janeiro, o normal para mim era o pão de trigo, mas teve uma época, lá pelos anos 60, em que o trigo ficou caro demais e o pão foi feito com a mistura do milho, o que a maioria das pessoas não gostava. Existia uma padaria no meu bairro que começou a fazer um pão de milho delicioso, bem amarelinho e que compravamos à peso.
Eu sempre gostei de pão de milho, mas meu marido não gosta, então nosso pão caseiro é só com trigo branco e trigo integral.

Beijo

M. Lourdes disse...

Amigo Poeta
Naquela altura também sentia muitas saudades do pão de trigo.
A broa nunca foi o meu forte...
Beijinhos

Pitanga
Eu não era muito adepta do pão de milho,mas tinha que o comer pois os papo-secos só apareciam na aldeia muito esporadicamente. Agora pão de mistura de trigo e centeio...ui, ui,...adoro.
Beijinhos

José
Concelhos vizinhos tinham normalmente os mesmos costumes. Nessa altura, eram as padeiras do Piódão que iam vender ao Sobral Magro, mas a partir do momento em que a povoação passou a ter estrada, era o padeiro de Seia que ia lá vender o pão.
Beijinhos

Flora Maria
O pão de milho nunca me agradou muito e era que se comia mais na região. Em algumas casas, também se fazia pão de centeio e esse, nem vê-lo...
Agora, o pão de mistura de trigo com milho ou com centeio, esse sim, gosto bastante.
Beijinhos