domingo, 18 de abril de 2010

Histórias da Serra


O momento é sempre adequado para fazer o certo.
(Martin Luther King)
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A adaptação daquela jóvem à grande cidade não foi complicada. Apesar de se encontrar um ambiente completamente diferente,  habitava com o marido num quarto alugado na  casa de conterrâneos, onde havia mais outros  casais da sua aldeia a viver. Nessa altura,  poucos  tinham ordenados que lhes permitissem  pagar uma renda  e então, quando alguém alugava uma casa, via-se obrigado a subalugar quartos para  ajudar a pagar o respectivo arrendamento.
Enquanto os maridos se encontravam a  trabalhar, as mulheres cumpriam as tarefas caseiras e,  no tempo livre, conversavam, davam longos passeios a pé à descoberta da   cidade, ou visitavam familiares e amigos. Numa das frequentes visitas que o casal fazia a casa dos tios que fôram também padrinhos de casamento, falou-se na hipótese de irem habitar o sótão da casa dos tios,  que naquela altura se encontrava  devoluto.
E foi o que aconteceu. A partir de então, o tempo passou calmamente até que, um dia, a jovem esposa descobriu que estava grávida. As preocupações com o futuro aumentaram com a perspectiva da chegada de um novo membro  à família. Ela preocupava-se com o futuro a curto prazo. O quartinho era pequeno e não tinham espaço para  uma caminha de bebé. Ele preocupava-se com o futuro a longo prazo. Conseguir um negócio próprio, que lhe desse possibilidades não só de um presente mas também de um futuro para o bebé que esperavam.
Um dia, a tia contou-lhes que um  conterrâneo dela tinha uma pastelaria em  trespasse. Esta conversa já não saiu da cabeça do rapaz. Conhecendo alguns amigos empregados da indústria hoteleira, desafiou-os para formarem uma sociedade. A medo,  quatro jóvens lançaram-se na luta por uma vida melhor. Recorreram a empréstimos de pessoas das aldeias da sua freguesia para pagarem o trespasse, pois na altura as instituições bancárias não funcionavam como actualmente e, quem tivesse algumas poupanças,  guardava-o em casa ou , emprestava-o a quem necessitasse, mediante o pagamento de um juro.
E foi assim, com empréstimos de várias pessoas da sua freguesia natal, que conseguiram o dinheiro para pagarem o trespasse da pastelaria   Bijou do Calhariz.


Pouco tempo depois, no dia 18 de Abril de 1950,   nas águas furtadas dum prédio no Largo de S. Cristóvão,  nasceu um bebé do sexo feminino, que viria dar um novo sentido à a vida deste jóvem casal.
Esse bebé rececbeu o nome de Maria de Lourdes.


Esta foi a história de vida de meus pais até ao meu nascimento. Quando iniciei este tema, Histórias da Serra, pretendi dar a conhecer percursos de vida de pessoas naturais da serra do Açor.  Outras histórias irei contar ao longo dos tempos, embora sem  tantos pormenores, pois não conheço nenhuma tão bem como esta que, por essa razão,  foi a primeira.



Obrigada pela sua visita. Volte sempre.

8 comentários:

alfacinha disse...

Águas furtadas, que palavra linda para uma quarto no sótão.Cumprimentos

Anónimo disse...

Embora já soubesse o final da história fiquei muito comovida e já hoje te dei os parabéns mas mais uma vez PARABÉNS muitos e muitos mais anos de vida com muita saúde
Beijinhos Hortense

José Pinto disse...

Olá Lourdes
Trouxe-nos à memória um país desestrurado de direitos sociais, com fluxos migratórios do Interior para o Litoral, nomeadamente para Lisboa, onde cada um se desenrascava como podia. No meio de tanta privação, tivemos casos de sucesso como foi o do seu agregado familiar. Verdadeiros heróis!
Um beijo

Dulce disse...

Minha querida amiga, que história linda! Sempre me comovo quando leio começos de vida baseados no amor e na vontade de vencer. E ainda mais quando faz parte desse começo o nascimento de alguem que um dia viria a ser pessoa querida em meu coração!... Muito obrigada por essa partilha.
Beijos

M. Lourdes disse...

Alfacinha
A língua portuguesa tem destas expressões engraçadas.
Bjos

Hortense
Já chegámos a uma idade que temos que comemorar cada vez mais cada ano de vida. Obrigada.
Beijinhos

José
É bem verdade o que escreveu.As pessoas daquela época migraram em busca de melhores condições de vida. Alguns regressaram sem êxito. Felizmente os meus pais foram um caso de sucesso, embora passássemos muitas dificuldades. No entanto, valeu a pena.
Beijinhos

Dulce
Esta é uma história de vida comum a muitas pessoas daquela época. Tal como seus pais, os meus também não se conformaram e lutaram. Lutaram muito, mas conseguiram o objectivo que pretendiam. Proporcionaram-me valores como a educação e instrução de que eles não puderam usufruir.
Obrigada pela sua amizade.
Beijinhos

Luis disse...

Minha Boa Amiga Mª de Lourdes,
Linda esta sua estória que alem de real demonstra o Amor que demonstrou pelo seus Pais. Eram tempos difíceis mas onde a seriedade imperava, não como agora que se perderam esses Valores. As Familias eram unidas , os Amigos também! Que Saudades tenho desse tempo!!!
Parabéns e um beijinho amigo.

Joaquim Angelo disse...

O tempo passou e as histórias ficaram.Era assim...Outros viviam em quartos,e foram muitos...Um Bjs.

João Celorico disse...

Olá, Lourdes!
Há histórias bem paralelas! Como eu a percebo. Só passados 16 anos, após a saída da minha terra, tivémos um andar só para nós. 3 divisões, um conto cento e dez escudos! Mas, há saudades desses tempos!
Porém, o que me interessa deixar aqui, já atrasado mas sei que não leva a mal, é um beijinho por esse dia 18. Que a vida lhe dê ainda muitos e bons, em companhia de todos os seus entes queridos, são os meus sinceros votos.
João Celorico