Conhecimento real é saber a extensão da própria ignorância.
(Confúcio)
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No capítulo das ancestrais crenças populares muito havia a escrever, pois o nosso país é fértil nesta matéria, mas o meu conhecimento sobre o o assunto é parco. A região do Açor não foge à regra do país e, antes de recorrer ao barbeiro ou ao médico, recorria-se às rezas.
A minha avó conhecia algumas que a mãe lhe ensinara e, ainda me lembro de a ver a fazer rezas, tentando aliviar o sofrimento de algumas pessoas do Sobral Magro.
Para o estortagado:
Quando alguém tinha algum problema de ossos ou dava algum mau jeito, arranjava-se um púcaro e uma bacia com água, um trapo, uma agulha e linha.
Com a linha enfiada na agulha, davam-se pontos no trapo enquanto se repetia três vezes a seguinte reza :
- Que cozo?
- Carne quebrada nervo torto.
- Por isso mesmo é que te coso, pelo poder de Deus e da Virgem Maria em louvor de milagres , o Santo António e o S. Gonçalo em louvor de S. Silvestre façamos coisa que preste, Nosso Senhor Jesus Cristo seja o nosso Divino Mestre.Pai Nosso, Avé Maria, Glória, Salvé Rainha.
Para a erisipela:
A Erisipela é uma doença de pele que se manifesta com o aparecimento de pequenas bolhas de cor avermelhada.
Para se tratar utilizava-se um terço, uma faca e um ramo de figueira que se molhava em azeite e se aplicava na parte doente fazendo cruz e rezando:
Nossa Senhora subiu à Serra e encontrou a Erisipela e perguntou-lhe:
- Para onde vais negra vermelhorra?
- Eu não sou negra e vermelhorra, eu sou branca e coradinha, vou para a terra, comer carne, chupar sangue, moer osso e dar face à terra fria.
Nossa Senhora respondeu-lhe:
- Pois eu digo-te que não vais à terra comer carne, chupar sangue, moer osso e dar face à terra fria.
Porque eu com estas continhas do terço haverei de te atalhar com esta faca te cortarei, com estes ramos de figueira te queimarei e ao mar te deitarei, onde não sintas sinos a tocar e galos a cantar.
(Por fim estas palavras eram repetidas três vezes e rezava-se uma Salve Rainha).
Para o Cobrão:
O Cobrão é também uma doença de pele, hoje conhecida pelo nome de Zona e manifestava-se sob a forma de borbulhas que provocam muita comichão e dores.
Dizia-se que aparecia devido a alguns bichos rastejantes( cobras, osgas, lagartos ou lagartixas ) passarem sobre a roupa que se encontrava a secar e lá deixarem a sua peçonha ( veneno) que depois provocava a doença.
Para o tratamento, arranjavam-se umas palhas de alho que se colocavam sobre um cepo. e se cortavam ao mesmo tempo que se rezava três vezes:
Que corto?
Cobra ou cobrão,
Sarda ou sardão,
Sapo ou sapão,
A tudo isso é que eu corto.
Aqui te corto a cabeça (cortava do lado esquerdo das palhas de alho)
o meio (cortava o meio)
E o coração (cortava do lado direito)
De seguida queimavam-se as palhas até ficarem reduzidas a cinza. Juntava-se azeite, amassava-se e colocava-se a pasta que se formava sobre o local doente, tapando-se com uma ligadura.
Para além destas, muitas outras rezas faziam parte das tradições da população serrana. Não esgoto aqui o assunto pois voltarei , numa próxima ocasião, a escrever sobre este tema.
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