quarta-feira, 17 de março de 2010

A Aldeia do Meu Pai II

Na adversidade é aconselhável seguir algum caminho audacioso.
(Lucius A. Seneca)


                                           
                    
O Passado:

Com uma vida tão dura, os habitantes da aldeia do meu pai, assim como os de muitas outras localidades situadas nas serranias do interior do país,  sentiram-se motivados a procurar uma vida melhor noutros locais do país ou do estrangeiro.


Uma grande maioria dos  homens rumou para a região de Lisboa em busca de trabalho, fixando-se principalmente nos Caminhos de Ferro (Lisboa) e na Cova da Piedade.
Viviam em quartos alugados e,  era numa qualquer taberna  que comiam as refeições e afogavam as mágoas, na companhia doutros que também tinham seguido os mesmos passos. Sentiam a falta da família.  As  mulheres tinham ficado na aldeia a amanhar as terras e a criar os filhos. Normalmente  iam à terra pelo S. Miguel, para ajudar nas  colheitas ou por ocasião da festa anual.  
Já com algum dinheiro junto,   reformavam-se e  regressavam definitivamente à aldeia onde acabavam os seus dias.  
Alguns sobralgordenses mais aventureiros, resolveram lançar-se nos negócios. Não tendo ao seu dispôr empréstimos bancários, pediam dinheiro emprestado aos seus conterrâneos e adquiriram quotas em sociedades. Após pagarem a dívida,  alguns conseguiram  uma vida mais desafogada. Depois, alguns davam emprego aos seus jovens conterrâneos que, como eles, vinham em busca de melhores condições de vida.
A partir de determinada altura,  as mulheres passaram a  seguir  os maridos no seu êxodo. Alugavam uma  casa de habitação e   os filhos passaram a nascer e a ser criados na região de Lisboa. No entanto, com as economias arranjavam ou construíam a casa na aldeia  onde, mais tarde, iam gozar a reforma.
Os que  não partiram,  também tentavam ganhar algum  dinheiro extra,  para poderem adquirir os produtos que a terra não lhes dava. Uns   vendiam o que tinham a mais, outros aprendiam mesmo uma profissão, que exerciam sempre que os trabalhos agrícolas  não exigiam a sua presença. Havia quem negociasse em gado e quem o matasse quando  necessário, mas os profissionais mais conhecidos  foram os canastreiros e os resineiros.
 O Sobral Gordo também sentiu a atracção que as minas da Panasqueira exerceram sobre a população da serra do Açor. Foram muitos os sobralgordenses que lá trabalharam e o meu pai seguiu-lhes as peugadas durante algum tempo.
 

- Dois dos melhores tocadores do Sobral Gordo -
(aqui sem instrumentos)

Apesar de tudo, na aldeia ainda havia tempo para se divertirem,  porque o corpo não é de ferro...
Assim, era frequente os seus naturais ocuparem  os  tempos livres com os jogos tradicionais, sendo mais populares  o fito e a panamalha, ou então, com  os bailaricos  ao som dos exímios tocadores e cantadores do Sobral Gordo. Este último caso tinha o seu ponto alto na festa anual, sempre muito concorrida, tanto pelos sobralgordenses como pelos habitantes das povoações vizinhas.

- O Largo da Fonte (entretanto construída) enfeitado para a festa -
 
 
 

Obrigada pela sua visita. Volte sempre.

2 comentários:

AFRICA EM POESIA disse...

M. lourdes
Este trabalhoé fascinante,
Delicio-me sempre ao passar por aqui. E Não dou conta do tempo.
mando um beijo com bastante tempo...





TEMPO


Este é o tempo...
Que foge...
Que escorrega...
Que voa...
Que teima...
Em não estar...
Mas que nós...
Teimosamente...
Agarramos com força...
E não deixamos fugir...
Quando ele escapa...
Voltamos a correr...
E a segurá-lo com força!...
De forma que ele
Venha para ficar...

LILI LARANJO

Flora Maria disse...

As histórias dos tempos idos são sempre as mesmas: muito trabalho, para um dia poder desfrutar do tempo que Deus lhes desse na velhice.
Acompanhei muitas histórias de portugueses que vieram para o Brasil em busca do El Dorado, e , a custa de muito trabalho, conseguiram prosperar e voltar a sua terra exibindo o fruto da sua coragem e determinação.

Considero que hoje a vida é mais mansa, e talvez por isso, as pessoas não tenham a mesma força e renúncia.

Parabéns pelos textos que estão excelentes !
Beijo