terça-feira, 16 de março de 2010

A Aldeia do Meu Pai I

A vida só pode ser compreendida, olhando-se para trás; mas só pode ser vivida, olhando-se para frente.
(Soren Kierkergaard)

Nesta semana que eu dediquei ao meu Pai, vou escrever um pouco sobre a aldeia que o viu nascer. 
Este foi o tema proposto para o mês de Março, no  blog  Aldeia da Minha Vida . No entanto, enviei apenas um resumo deste e das postagens seguintes, pois estava confinada a apenas 25 linhas.


- Vista parcial do Sobral Gordo, no século passado -
O Passado:

O meu pai é natural duma pequenina aldeia chamada Sobral Gordo,  pertencente à freguesia de Pomares e concelho de Arganil, situada numa das encostas verdejantes da serra do Açor.
Quando ele nasceu, há 81 anos atrás, a população vivia da agricultura, em terrenos ganhos às vertentes íngremes da serra  com a construção de socalcos (cômbaros), bem como da   criação de gado.   Muito trabalho era comunitário e em tempo de dificuldade, ajudavam-se uns aos outros.
Na base da alimentação estavam os produtos  que cultivavam que acompanhavam a carne do porco que criavam e matavam anualmente. O peixe que se comia em algumas casas mais abastadas era o bacalhau e em dias de feira a sardinha.
No Sobral Gordo, havia famílias que se dedicavam a outras actividades, com as quais ganhavam algum dinheiro extra. Eram os casos dos canastreiros e  resineiros tão famosos na freguesia.
A aldeia não tinha estradas.Transportavam os bens à cabeça ou às costas. Só os mais abastados possuíam uma mula ou um macho para servir de transporte. Para se deslocarem à sede de freguesia, faziam-no a pé, percorrendo um estreito caminho. Só  por volta dos anos trinta do século passado, foi construído um  caminho de bois.
Não havia saneamento nem electricidade e a  água era transportada para casa, em cântaros dum local  situado fora da povoação (a Fonte Velha).
A roupa era lavada na ribeira e a higiene era feita em  alguidares com água aquecida na lareira, em grandes panelas de ferro .
Não havia  escola e  uma  parte da população era analfabeta. Os poucos que sabiam ler e escrever ensinavam aqueles que queriam aprender. Entretanto, a população da vizinha aldeia de Sobral Magro construiu um edifício escolar e, a partir do inicio do seu funcionamento, recebeu também as crianças do Sobral Gordo. Foi o caso do meu pai e de muitos outros que percorriam, a pé, a distância entre as duas aldeias, debaixo da chuva, frio, e  neve durante os rigorosos  invernos e sob  sol escaldante no Verão. Quase todos  eles, antes de seguirem para a escola, deixavam já um molho de mato à porta do curral das cabras e ovelhas e, no regresso, ainda iam ceifar erva, regar ou desempenhar qualquer outra tarefa no campo. À noite, após a ceia, à luz da candeia de azeite ou do candeeiro a petróleo, faziam os seus deveres e estudavam todas as matérias que faziam parte do vasto programa curricular da época.
A vida na aldeia era muito dura e as crianças faziam-se homens "à força" mas, o respeito marcava um lugar muito importante no seio de cada família.



- O Sobral Gordo, avistando-se ao fundo o Sobral Magro -


Sobral Gordo tem história
No arquivo da memória.
Passada de pais a filhos
Desde o dia em que nasceu
E no tempo não morreu
No marasmo dos seus trilhos.

(Jaime Lopes)


Obrigada pela sua visita. Volte sempre.





4 comentários:

Maria Teresa disse...

Lourdes:
Que homenagem linda! Sempre tenho para mim que grandes homens são aqueles que têm uma história rica de preceitos valiosos, transmitidos com a determinação dos que prezam seu próprio solo.
Beijos carinhosos

Joaquim Angelo disse...

Esta era a vida que muitos aldeões passavam nas suas aldeia rodeados de trabalho e longas canseiras.Linda homenagem dedicada aos pais.Bjs.

José Pinto disse...

Lourdes
É uma descrição fabulosa! Lendo-a, consegui rever o estilo de vida da minha aldeia noutro tempo. Os molhos de mato...a fibra daquela gente aparentemente rude, mas tão rica de valores!
Um beijo

Flora Maria disse...

Histórias, histórias...
Que seria da nossa vida sem as histórias dos antepassados, sem os exemplos de trabalhos, sofrimentos e prazeres dos que nos ensinaram a viver ?

Beijo