segunda-feira, 11 de outubro de 2010

A Minha Rua: Pregões

Ao longo do dia, na minha rua a azáfama começava cedo. Dentro de casa, fazendo qualquer tarefa caseira,  apercebíamo-nos dos vendedores ambulantes que passavam na rua, pois ouvíamos os pregões das diversas profissões da época.
Eu achava graça à forma como gritavam cantarolando:
- Seculooó Notícias! Olh'ó Diário Popular!- era o ardina com a sacola cheia de jornais pendurada no ombro que descia a rua a correr disputando com outros o  melhor posto de venda. Ao mesmo tempo, fazia rolos com alguns jornais que atirava para a janela de alguns clientes certos.

- O Ardina -

De vez em quando,  ouvia-se também:
- Quem tem trapos ou garrafas para vender? - era o ferro velho que cantarolava, tentando recolher objectos velhos que depois vendia nas feiras.
Havia um pregão que me encantava que era o do cauteleiro, talvez porque o senhor tinha uma voz muito sonora e afinada, que cantava:
- Ó meninas desta rua
Venham todas à janela
Se quiserem ser felizes
Comprem-m'aqui uma cautela.

- Amolador -

- Amolador! - gritava um homem, seguindo-se uma música característica tocada numa de gaita de beiços. Ao mesmo tempo, empurrava uma caranguejola onde trazia entre outros, uma pedra de amolar. Quando alguém precisava de afiar facas ou tesouras ele impulsionava a roda através duma espécie de pedal. Arranjava também chapéus de chuva, substituindo alguma vareta partida.
- Funileiro à porta!- era um homem vestido com um fato de ganga meio enxovalhado, que aguardava pelas senhoras qur tivessem  tachos ou panelas com pequenos furos que eles tapavam com um pingo de solda ou pratos e tachos de barro partidos,  onde eles punham uns gatos, deixando-os de novo aptos para servir.

- Varinas -

 - Ó viva da Cooooosta! Há carapau e sardinha linda! Olha a faneca linda!- gritava a varina com a canastra à cabeça.
- Fava ricaaaa! - uma mulher transportava um cesto à cabeça onde trazia uma grande panela desta sopa, bem embrulhada para se manter quentinha, que vendia de porta em porta.
- Ollh' à língua da sogra! - este era um dos pregões que eu ansiava ouvir pois, por vezes, a minha mãe mesmo contrariada, lá me comprava uma. É sempre assim. Eu tinha acesso aos excelentes bolos que o meu pai fazia na Bijou, mas eram aqueles que despertavam o meu desejo.

- Vendedora de fava-rica -

Sazonalmente apareciam  outros vendedores.
- Quem quer figos quem quer almoçar? Ó figuinho da capa rota!- era a mulher da fruta que aparecia ao cimo da rua com o cesto cheio de fruta.
Cada fruto tinha o seu pregão que ia mudando conforme a época em que mais abundava. Ainda hoje me lembro do cheirinho característico daquela fruta, vinda directamente da árvore sem ir ao frigorífico. Na fruteira lá de casa perfumava a casa inteira.


- O Vendedor de castanhas -

Havia  um pregão  que  anunciava o Outono:
- Quentes e Boas!- era um senhor que carregava às costas um cesto forrado com serapilheira onde transportava castanhas quentinhas. Mais tarde, já trazia   um carrinho com um fogareiro, onde ia assando castanhas que depois metia num cartucho que fazia,  com papel de jornal velho.
Também  o Verão era anunciado por um pregão:
-  Esquimó fresquinho! Frut'ó chocolate! - o vendedor, montado numa bicicleta com um carrinho onde transportava o sorvete, que fazia as delícias da pequenada.
As senhoras desciam a escada e vinham à porta comprar o que lhes fazia falta, mas as mais idosas e as que moravam  nos andares mais altos dos prédios, lançavam pela janela um cestinho preso por uma corda, onde o vendedor colocava o produto pretendido. Depois as senhoras içavam o cesto, fazendo a mesma operação para enviar o dinheiro do pagamento.
- Vendedor de esquimós -

A vida mudou. Claro que não tenho saudades nenhumas das dificuldades que sentíamos na altura,  mas é com uma pontinha de nostalgia que recordo as vivências da minha infância, pois elas fazem-me valorizar  aquilo que consegui alcançar.

Nota: As imagens foram todas tiradas da net.



Obrigada pela sua visita. Volte sempre.

6 comentários:

Ana Martins disse...

Boa noite Lourdes,
adorei este post, muito interessante!

Beijinhos,
Ana Martins
Ave Sem Asas

José Pinto disse...

Lourdes
Que belas imagens da Lisboa antiga, na sua forma mais genuína! Ainda hoje, sempre que posso, saio da Baixa a pé, dou uma volta pela zona de Alfama e, se for terça ou sábado, subo até à Feira da Ladra onde me consolo a ver o verdadeiro POVO!

Mariazita disse...

Olá, Lurdes
Foi muito bom recordar estas delícias de outrora!
Não passei a infância em Lisboa, mas parte na Figueira da Foz e parte no Porto; mas às vezes vinha a Lisboa e recordo-me de alguns destes pregões, impecavelmente descritos por si.
As imagens são óptimas, muito bem escolhidas.
Parabéns pelo post.

Beijinhos

João Celorico disse...

Olá, Lourdes!
Que bom relembrar!
Ainda bem que não havia ASAE, pois que tudo isso acabaria.
E, já agora, relembro que em cada época festiva, principalmente no Natal, aparecia um brinquedo novo p'ró menino e p'rá menina. Era "o sempre em pé", a "galinha que punha ovos", "o trapezista", "o yô-yô", o "arco do hulla-hoop" e tantos outros que agora não recordo.
Boas memórias, apesar de tudo!

Abraço,
João Celorico

Luis Antunes disse...

Olá Lourdes
AChei um piadão a esta postagem,pois alem de me transportar até ha bastantes anos atras, traz me tambem todas essas cantilenas que se ouviam pelos diversos vendedores porta a porta
Além disso fez me ainda recordar que quando pensei fazer um blogue foi com a simples intenção de recordar todass essas coisas e partilha las com quem me visita.
Desviei me um pouco dessa linha mas um dia destes volto a publicar recordações
Obrigado por trazer á memória os nossos tempos de adolescentes
bjssss

Flora Maria disse...

Que postagem deliciosamente nostálgica, Lourdes !
Na minha infância convivi com vários vendedores de rua, principalmente no bairro em que meus avós moravam, mais tranquilo do que o meu.
Alguns são semelhantes aos seus.

Gostei muito !
Beijo