quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Lisboa: O Elevador da Bica



Um dos ex-libris da Bica é sem dúvida o seu elevador que, desde 2002, juntamente com os outros ainda  existentes em Lisboa,  é considerado monumento nacional. 
Este meio de transporte existe desde 1892 e é composto por duas carruagens que sobem e descem alternadamente a Rua da Bica Duarte Belo, entre  a Rua de São Paulo, situada na parte baixa do bairro, e o Largo do Calhariz.
O seu percurso, feito na depressão que resultou do terramoto de 1597  é bastante íngreme. Através das vidraças ou das portas abertas, podem-se apreciar várias ruas, becos, vielas  e escadinhas que formam este bairro  típico, hoje tão descaracterizado pelos graffitis que teimam em espalhar por tudo quanto é sítio.  


- A Rua da Bica Duarte Belo -

Muitas foram as vezes que  utilizei  este elevador ao longo da minha vida. Em pequena, quando vinha com a minha mãe das compras, que íamos fazer ao Mercado da Ribeira, mais tarde quando vinha do liceu e agora, sempre que me desloco à Bijou do Calhariz e utilizo  o barco que atraca  no Cais do Sodré. Normalmente, só o utilizava na subida, porque "a descer todos os santos ajudam" e poupava-se o dinheiro do bilhete da descida.
Nas minhas viagens, curtas porque o percurso é pequeno, muitas vezes assistia a cenas engraçadas. Uma delas repetia-se várias vezes ao dia. Os rapazes brincavam na rua e uma das brincadeiras preferidas era andarem na pendura  isto é, agarravam-se aos meios de transporte em andamento e seguiam viagem escondendo-se do condutor. Era o que se passava no elevador. Às vezes o condutor  via-os e  tinha que interromper a viagem para os obrigar a descer. Depois, era uma corrida desenfreada, fugindo pela ladeira abaixo,  para se prepararem para uma nova tentativa, quando o outro elevador subisse.
Outra das cenas foi passada comigo, numa viagem que fiz com a minha vizinha Nanda.
Como este transporte não tem paragens na subida, logo que chegavam perto de suas habitações, os passageiros saltavam em andamento, evitando ir até ao cimo da rampa para depois ter que descer parte dela.
Mais velha,  e mais habituada a desenvencilhar-se  na rua que eu, a minha vizinha saltava do elevador em andamento com uma agilidade que eu invejava. Um dia, ela deu-me várias instruções de como eu tinha que proceder para saltar sem cair. Ao passar junto à travessa do Sequeiro, ela saltou e eu fiquei a pensar nas crianças que  já tinha visto cair ao querer fazer o mesmo. De olhar fito na calçada que fugia sob o elevador e  balançando tentando ganhar impulso, ouvia a voz da Nanda, cada vez mais longe, gritando:
- Salta Lourdes! Salta, salta.
E eu saltei, mas apenas quando o elevador parou.
Quando cheguei ao pé dela fartámo-nos de rir da minha azelhice e falta de coragem.



Ontem ao passar a caminho da Bijou, vi um elevador diferente, estranho. Já não é amarelo. Está todo espelhado. Disseram-me que é um projecto temporário da Carris, que terminará no final de Junho e que pretende dar um  look artístico aos elevadores lisboetas. Para tal, convidou vários artistas plásticos para o fazerem. A intensão do artista que projectou esta ideia era  reflectir  no espelhado as ruas, os prédios, os peões,  a vida do bairro.  Pode ter sido uma ideia muito original mas, confesso que me habituei a vê-los sempre amarelos e não gostei do que hoje vi.

- O  aspecto temporário do elevador da Bica -



Obrigada pela sua visita. Volte sempre.

5 comentários:

João Celorico disse...

Olá, Lourdes!
Estou a gostar e a lembrar sítios e situações que não me são indiferentes.
Saltar de eléctricos em andamento tem a sua técnica. Eu também não era muito apologista. Um colega meu ficou sem uma perna...
Mas, num elevador... A Lourdes só aplicou a máxima "o seguro morreu de velho" e resolveu o problema!
Abraço,
João Celorico

Flora Maria disse...

Concordo com você, Lourdes: por que mudar uma coisa que é tão tradicional ?
Não é que não goste de coisas novas, mas que sejam realmente novas e não mudando-se o que já existe.

Quanto à praga das "pixações", que é como chamamos por aqui os grafismos, já vi que é moda universal, infelizmente...

Andei muito ocupada com a Mostra de Artesãos e, agora, não estou conseguindo colocar comentários no meu blog !

Beijo

alfacinha disse...

Olá
No sábado passado, também apanhei o eléctrico espelhado, o que é que um transporte muito giro e além disso poupa muita força própria. Uma visita a Bijou aprendeu-me que a pastelaria é um estabelecimento de confiança e que tem a qualidade dos seus produtos como objectivo principal. O que se reflecte à clientela melhor. Como Pequeno-almoço tomava sempre um galão e um bolo caracol delicioso.
Cumprimentos de alfacinha de Antuérpia

Dulce disse...

Minha amiga, acompanho com saudade no coração estes seus passeios por Lisboa. Lindos passeios que me trazem de volta os momentos que ai vivi, em dias de alegria e encanto. Saudades de Lisboa...
Beijos e um lindo dia para você.

Maria Teresa disse...

Ah, Lourdes, como assim? Lisboa tem esses elevadores (que chamamos de bondinhos por aqui) como cartão postal! Eles são eternos! Que fiquem os espelhos para os arranha-céus!
Beijos