sábado, 23 de outubro de 2010

Memórias no Açor

A minha ligação com a serra vem desde muito cedo, pois os meus pais levavam-me para o Sobral Magro para passar os três meses de Verão com os meus avós. Eu sempre adorei esse período de tempo, longe do bulício da cidade, onde eu me sentia mais próxima da liberdade.
Era  ainda uma criança e, até lá chegar, tinha  que fazer um longo percurso a pé.
Quando ia com os meus pais, deixávamos o carro  em Pomares, ou às Almas do  Goulinho, que eram os locais mais próximos da povoação, onde chegava uma estrada. Lá tínhamos à nossa espera grande parte da família para nos ajudarem a transportar as bagagens que levávamos: malas, cestos e cabazes com vários produtos que não se comercializavam nas tabernas da aldeia.


Era um percurso penoso, mas que se vencia por entre as conversas que nos punham a par das notícias da aldeia. As saudades eram muitas e alegria do reencontro era grande.
No início da caminhada, eu ainda seguia animada com o carinho dos meus familiares mas, a partir de determinda altura,  desesperava.  As ervas do caminho faziam-me cócegas nas pernas e eu coçava-as.  As pedras escorregavam sob os meus pés e eu fazia um esforço enorme para não cair. De vez em quando, dava um pontapé numa pedra maior e eu refilava porque o caminho nunca mais acabava. Cansada, arrastava os pés pela terra do estreito caminho, levantando uma nuvem de poeira, que ia de encontro às pessoas carregadas que seguiam atrás de mim. Logo se seguia um raspanete dos meus pais tentando pôr-me na ordem e eu ficava para trás, amuada. 
Era sempre assim. Vencíamos outeiros e valeiros infindáveis, até ouvir lá ao longe, as horas a bater no relógio da  torre da capela, anunciando a proximidade da aldeia.
Então, o cansaço desaparecia e eu ganhava novas forças. Guiada pelos telhados de lousa da aldeia que se vislumbravam ao longe,  seguia indiferente às ervas, topadas e escorregadelas, passando à frente de toda a gente.
O final da caminhada estava próximo e, durante os três meses seguintes, eu seria livre. 



Obrigada pela sua visita. Volte sempre.

4 comentários:

Luís Coelho disse...

Um retrato fiel dos meninos da cidade que em contacto com a natureza ficam perdidos e desajeitados.

Depois, começam a saborear e já não querem outra vida e até aceitam as limitações e privações.

Recordo os meus filhos em casa dos avós maternos em Bezelga - Penedono.

Devagarinho no meio dos penedos lá conseguíamos levar o Renault 5 ao destino. Bons tempos.

Esse cesto era onde a minha saudosa mãe levava o farnel quando iam às festas da Senhora da Nazaré.

Para cá carregava-o de cavacas doces das Caldas da Rainha

João Celorico disse...

Olá, Lourdes!
E eu que pensava que para a minha terra é que a viagem era o cabo dos trabalhos!
Sete da manhã na estação do Rossio, carregados de embrulhos, malas e cestos, que havia que levar alguma coisa para nós e também para contentar família e amigos. Depois duma viagem de comboio de cerca de 5 horas, uma longa espera de cerca de 3 horas, cheios de calor e, de seguida, uma viagem de camioneta, ronceira, que terminava por uma estrada poeirenta que nos "enfarinhava" todos e que terminava às 7 da tarde. Era obra! 12 horas de viagem! De avião, chegava para ir à Índia...
Mas, como diz, era bom o tempo que se seguia e que durava até à "tortura" da viagem de regresso.
Outros tempos...

Abraço,
João Celorico

luis antunres disse...

Acabo de verificar que tal como eu tambem os meus amigos recordam com alguma saudade e alegria misturada esses velhos tempos
Mesmo muito antes do renault 5
Eram ainda os carros de bois e logo a seguir os chevroletes e as borguards
Isso sim era vida sã
embora penosa a gente dormia o sono dos justos
agora ninguem nos deixa dormir
Um abraço a todos

alfacinha disse...

Sempre agradável, engraçado instrutivo, cativante,eu quereria escrever assim .
Cumprimentos de Antuérpia