domingo, 21 de fevereiro de 2010

Num Final de Domingo Chuvoso, a Poesia de Fernando Pessoa

Um poeta é sempre irmão do vento e da água: deixa seu ritmo por onde passa.
( Cecilia Meireles)
Mais um dia de chuva e vento intensos,  bom para passar o dia  no aconchego do lar. Aproveitei o Domingo para descansar, enroscada no conforto do sofá, na companhia de um bom livro. E que tal a poesia de Fernando Pessoa?


Chove ? Nenhuma Chuva Cai...





Chove? Nenhuma chuva cai...
Então onde é que eu sinto um dia
Em que ruído da chuva atrai
A minha inútil agonia ?



Onde é que chove, que eu o ouço?
Onde é que é triste, ó claro céu?
Eu quero sorrir-te, e não posso,
Ó céu azul, chamar-te meu...



E o escuro ruído da chuva
É constante em meu pensamento.
Meu ser é a invisível curva
Traçada pelo som do vento...



E eis que ante o sol e o azul do dia,
Como se a hora me estorvasse,
Eu sofro... E a luz e a sua alegria
Cai aos meus pés como um disfarce.



Ah, na minha alma sempre chove.
Há sempre escuro dentro de mim.
Se escuro, alguém dentro de mim ouve
A chuva, como a voz de um fim...



Os céus da tua face, e os derradeiros
Tons do poente segredam nas arcadas...



No claustro sequestrando a lucidez
Um espasmo apagado em ódio à ânsia
Põe dias de ilhas vistas do convés



No meu cansaço perdido entre os gelos,
E a cor do outono é um funeral de apelos
Pela estrada da minha dissonância...



Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"



Obrigada pela sua visita. Volte sempre.

2 comentários:

ELISABETE- disse...

ola lourdes,ha um miminho para vc no meu cantinho.bjo

Fernanda disse...

Querida amiga Lourdes,

E a chuva continua...hoje está um dia tenebroso aqui por cima, na minha bela Vila D'Artes.

Poema lindíssimo de Fernando Pessoa, mas não chega para nos dar alento.
Eu também preciso de um céu azul, claro!
Urgentemente.

Beijinhos