sábado, 6 de fevereiro de 2010

Carnaval à Porta

A vida é um "carnaval";Pena que de vez em "sempre" algumas máscaras caem...
(Paula Liron)

O Carnaval está à porta e já se sente, por todo o lado, o entusiasmo que esta festa desperta na maior parte das pessoas. Eu pessoalmente não gosto desta fase do ano.
Nasci e fui criada em Lisboa,  numa altura em que às meninas não eram permitidas certas liberdades, pois não ficava bem.  Morava no bairro da Bica, um bairro popular com ruas estreitas e escadinhas. Eu e outras  meninas, minhas vizinhas, passávamos o tempo livre à janela e, pelo Carnaval,   atirávamos serpentinas de janela para janela, dando um colorido, fora do habitual, às ruas. No entanto, logo  apareciam  grupos de rapazes que se divertiam a estragar os nossos enfeites. Traziam  saquinhos de serradura presos por um  cordel que atiravam  ao ar e rebentavam as serpentinas, por entre sonoras gargalhadas, gritando:
 - É Carnaval, ninguém leva a mal!
Nós  assistíamos revoltadas e inconsoláveis sem nada poder fazer. As ruas ficavam cobertas de serpentinas rasgadas que eles enrolavam e pontapeavam.
Mais tarde,  já mais velhinha, tinha obrigatoriamente que sair  para ir para a Escola. Nos dias que antecediam a semana do Carnaval, éramos de novo o alvo preferido da rapaziada que corria atrás de nós, de bisnaga em punho, encharcando-nos todas e atirando-nos farinha que empastava os nossos cabelos e vestuário. Se nos apanhavam distraídas enfiavam-nos um punhado de papelinhos na boca que quase nos sufocava. Outras vezes atiravam-nos   estalinhos e bichas de rabiar  que  nos apanhavam desprevenidas e  nos assustavam com o barulho faziam. Isto para não falar nas garrafinhas de mau cheiro, que atiravam pelas janelas, inundando as nossas casas com um odor insuportável.
Algumas das minhas vizinhas mascaravam-se com vistosos fatos, que depois as mães  levavam a desfilar pelas ruas. Da minha janela assistia ao desfile de  princesas, fadas, minhotas, ciganas, saloias, e tudo o que a imaginação e carteira dos pais podia comprar. E depois, aquela pequenita que passava junto à minha janela vestida de espanhola, era o meu sonho. O que eu gostava daquele vestido vermelho à bolinhas, das castanholas, da mantilha e do leque que ela orgulhosamente abanava.
Os meus pais,  pessoas humildes que lutavam por uma vida digna, não tinham possibilidades financeiras para fatos de Carnaval.   Como é que eu podia compreender a razão porque me mascaravam com roupas velhas da minha mãe, transformando-me numa figura desajeitada e trapalhona. Só mais tarde entendi que , para além das condições económicas, era  também essa a tradição da aldeia em que tinham nascido.
Cresci e algumas das minhas amigas organizavam assaltos, que eram bailes onde se ia devidamente mascarado e, por essa razão, muitas vezes intrometiam-se  pessoas que ninguém conhecia. No entanto, nem esses bailes eu podia frequentar.
Assim passava este tempo a ver o que se passava na rua, da minha janela.
E foi assim que o meu desamor pelo Carnaval foi crescendo ao longo da minha vida.


Obrigada pela sua visita. Volte sempre.

2 comentários:

Osvaldo disse...

Lourdes;

Bom,... esta Crónica de Carnaval está fabulosa, muito bem escrita e contada. O Carnaval sempre foi e será o momento de ilusões e sonhos travestidos. É o momento de sermos ou procurarmos ser o que na vida real não somos e não queremos nem aceitamos ser. São 3 dias de folia ou talvez não, em que na quarta-feira tudo se reduz a "cinzas".

Já assisti a alguns carnavais, todos bem diferentes, Rio, Veneza, Basileia, e a cada Carnaval que passa, mais eu gosto do "Entrudo", porque este é genuíno, verdadeiro, popular e é do povo. o outro, o Carnaval,... é só "p'ra inglês ver".

bjs, Lourdes
Osvaldo

Joaquim Angelo disse...

Bom dia D. Lourdes.O carnaval está mesmo aí...Então vamos a aproveitar estes três dias de divertimento...