sexta-feira, 11 de maio de 2012

Há Festa na Aldeia I

Dei um salto na cama. O  som duma descarga de 21 morteiros  ecoava no ar  e acordou-me em sobressalto.  Era a alvorada  que anunciava a festa.
Corri para a cozinha, engoli a malga de café quentinho, comi um coscorel feito na véspera e voltei para o quarto, onde o vestido novo me aguardava  pendurado nas grades  da cama de ferro. Naquele dia  deixei  que a  mãe me penteasse e me  fizesse  aqueles lindos canudos, sem refilar. Penso até  que nem senti os arrepelões que me deixavam impaciente, nos  momentos em que  me penteavam.
Enquanto isso, ouvi a banda que chegara ao largo da Barroca. Da varanda, vi os músicos a serem  distribuídos pelos  mordomos e pelos outros homens da povoação,  seguindo depois para suas casas, onde iriam saborear a primeira refeição do dia.

Já pronta, segui para a Capela onde se dava início  à parte religiosa da festa fazendo  a Recolha dos Andores, que se encontravam com o respectivo "santo", em casa das mordomas onde tinham sido primorosamente enfeitados.
As  janelas e varandas estavam enfeitadas com bonitas colchas e na Sacristia  da Capela, as capas e faixas da Cruzada eram distribuídas pela criançada. O adro estava repleto de pessoas. Muitas delas eram de aldeias  vizinhas que  vinham retribuir a presença dos naturais da minha aldeia nas suas festas.
Com as outras crianças assisti à   longa Missa Cantada, celebrada por  três padres, em latim. Sem perceber absolutamente nada colaborámos  conforme pudémos,  mas sempre certinhas para não deixar ficar mal vistas  a Ida e a Belmira, as nossas catequistas.
Depois veio a Procissão. Eu adorava aquela parte da festa religiosa. Lembrava-me  de ver as raparigas, que se juntavam à porta de casa da minha avó, a cortarem em quadradinhos muito pequeninos  as cartas dos familiares, para deitarem das janelas de casa sobre os andores e sobre as pessoas que passavam. E eu, gaiata viva e irrequieta, lá ia muito feliz  com a  capa da Cruzada que orgulhosamente envergava. Quando os papelinhos esvoaçavam sobre a minha cabeça, tentava-os  apanhar , pensando talvez,  conseguir descobrir as mensagens escritas nas cartas que lhes deram origem.
Algumas senhoras transportavam fogaças à  cabeça. Os  tabuleiros iam repletos de iguarias e deles exalava um cheirinho a coelho, frango ou cabrito assados,  que durante a longa Procissão me  abriam o apetite  para a grande refeição do dia.
No final, as fogaças foram leiloadas. Algumas foram rematadas por forasteiros para lhes servir de refeição e os preparar  para a parte pagã da festa.




Obrigada pela sua vista.
Volte sempre.

6 comentários:

Luís Coelho disse...

Foram assim os nossos tempos de meninos. Depois crescemos e as coisas foram sendo iguais, nós é que mudámos...
Detesto aqueles foguetes tantos dias e tantas horas...

António Serrano disse...

Bem contado. Com sabores da minha já longínqua infância e juventude. Lá do outro lado, nas bandas da Malcata. Era muito assim, na festa, o mundo em que nasci, cresci e vivi. Que não volta.

Maria Rodrigues disse...

Amiga Lourdes com as suas fotografias e texto conseguiu reportar-me até essa altura mágica da sua vida.
Bom domingo
beijinho
Maria

Flora Maria disse...

Que lindo !
Pareceu-me uma celebração de Primeira Comunhão.

Na minha, por ser uma das 4 meninas mais altas, fui ajudando a carregar o andor com a santa.
E com sapatos novos, fiz bolhas nos pés !!!

Lembranças...
Beijo

alfacinha disse...

As suas histórias continuam a fascinar-me.
Cumprimentos

João Celorico disse...

Curiosos festejos e tradições que hoje nos parecem tão longínquos!

Ao ver a menina dos canudos, mais me convenço que a minha prima, que "sofria a bom sofrer" com a feitura dos mesmos, também andou na escola em Santa Catarina e até teria uma colega chamada de "Lourdinhas"! Será?

Abraço,
João Celorico