segunda-feira, 2 de julho de 2012

Romagem

Acordei com a voz da Marquitas que me chamava da sua janela, separada da minha apenas pelo estreito quelhoto.
Ergui-me dum salto, mexi os folhos da cama e puxei as orelhas aos lençóis. Já à cozinha, engoli uma malga de café, lavei os olhos, agarrei no cesto onde tinha a bucha arranjada na véspera e desci as escadas a correr.  A Marquitas e as mais já estavam à minha espera no Largo da Barroca.
Íamos para a Romagem. O Vale de Maceira ficava longe e ainda era de alpardo.
Umas atrás das outras seguimos por uma estreita vereda. Aqui e além, uma topada dava origem a pragas e algumas palavras menos próprias de quem vai a caminho duma festa religiosa. Todas riam às gargalhadas.
Chegámos à entrada do Vale de Maceira. Uma poça com água serviu para nos refrescarmos e lavarmos os pés sujos de borralho do caminho. Com a travessa do cabelo, ajeitámos as melenas soltas e compusemos os carrapitos.


Já prontas, seguimos para a aldeia repleta de gente. Por todo lado se viam camionetas vindas de localidades muito afastadas, carrosséis e outros divertimentos. Cruzando o recinto, vários grupos de tocadores afinavam os seus instrumentos enquanto os cantadores aqueciam as vozes. Pelas encostas laterais ao Santuário havia tendas de comes e bebes e muitos artigos de feira. Espalhadas pelo chão as mantas de fitas serviam para colocar uma toalha com a bucha e as pessoas se sentarem em toda a volta.
Escolhemos também um local onde estendemos a nossa manta. A Marquitas colocou em cima uma bonita toalha de linho e os cestos da bucha.
Aos poucos, chegavam familiares e amigos  que tinham ido de véspera e ali passaram a noite e se juntavam ao nosso grupo. Enquanto os mais velhos punham em dia as novidades, nós fomos dar uma volta às barraquinhas para fazer compras. A Marquitas comprou uma bonita colcha para o enxoval e um pião para o irmão. Eu um bolo doce para levar à minha avó.
A Marquitas prometera pelo Manel, o seu conversado, que se ele voltasse da guerra de Angola, iria cumprir uma romaria à Nª Sª das Preces,  no Vale de Maceira. Ele também prometera transportar o andor de Nossa Senhora na procissão e viera de Lisboa para juntos cumprirem as promessas.
Assim que ele chegou, espalhámos sobre a toalha os mais variados petiscos: bacalhau frito, coelho e galinha assados, queijo, chouriço e broa. Para beber, não podia faltar o garrafão de vinho. Eu fui com a Marquitas à barraquinha mais próxima comprar gasosas, laranjadas e pirolitos.
Depois foi comer, beber e conviver. Quando perto passavam amigos doutras aldeias, eram logo convidados para se juntarem ao nosso grupo. Depois de bem comidos e melhor bebidos, os tocadores começaram a mostrar a sua habilidade, tocando as músicas mais conhecidas da região. Espontaneamente outros começaram a cantar e os restantes a dançar. Algumas raparigas dançavam umas com as outras mas logo apareceram rapazes de outras aldeias para desapartar e a roda alargava à medida que mais pessoas chegavam, motivadas pela música bem tocada e pelas exímias vozes que davam um maior brilho ao baile.
O tempo passou rápido. O baile foi interrompido pelo toque do sino. Então, fez-se silêncio, a fé envolveu-nos  enquanto participámos na Santa Missa.


A procissão foi uma linda e comovente cerimónia. O andor muito bem enfeitado de lindas flores passou junto de nós. Ajoelhámos à sua passagem e lá ia o Manel, envergando o seu fato de magala. A Marquitas, a seu lado, limpava-lhe carinhosamente o suor que lhe escorria pelas faces coradas, devido ao intenso calor daquele final de tarde estival.
Depois foi a debandada geral. As camionetas estacionadas no recinto iniciavam o percurso de regresso, com alguma dificuldade pois a estrada depressa ficou repleta com os grupos de pessoas que seguiam a pé para as suas aldeias. À saída do Vale de Maceira descalçámos os sapatos, calçamos de novo os chinelos e aumentámos o passo, pois a noite não tardava.



Obrigada pela sua visita. Volte sempre.



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