segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Memórias da Aldeia

A fazenda dos meus avós era das mais afastadas da aldeia.
Em tempo e rega, esperávamos que o Sol passasse pelo Penedo Branco para tapar a água ou deitá-la à ribeira, conforme as andadas , e só depois nos fazíamos ao caminho de regresso a casa.
A avó carregava num cesto de  alqueire, algumas batatas para a ceia e na mão levava a bilha do leite  para   fazer o queijo,  A tia carregava, à cabeça, a cesta cheia de roupa que a avó lavara na ribeira durante a tarde e na abada do avental algumas baijas que apanhara nos feijoeiros que subiam agarrados às canas do milho, Eu, no meu cesto de quarta, levava uma boneca feita  com trapos velhos e meia dúzia de cacos de pratos, que me serviam de loiça  quando brincava às casinhas. O avô seguira por outro caminho para botar a ceia ao gado, porque os currais ficavam do outro lado da ribeira e só mais tarde se iria juntar a nós.
O caminho era mau, longo, e íngreme mas, à medida que passávamos pelas fazendas de outros habitantes do Sobral, metíamos conversa e esperávamos por eles, aumentando os caminhantes no regresso a casa.
Era já de alpardo quando chegávamos à ponte da ribeira e iniciávamos a subida da  rampa que nos levava à povoação. O sino da capela tocava as “Avé Maria” e todos rezávamos:

O anjo do Senhor anunciou a Maria
E ela concebeu do Espírito Santo.
Avé Maria...

Eis aqui a escrava do Senhor
Faça-se em mim segundo a vossa palavra.
Avé Maria...

E o Verbo Divino encarnou
E habitou entre nós.
Avé Maria...
Já na povoação,  cada um seguia para sua casa, para outras actividade até que finalmente chegasse a hora de ir para a cama.
- Até depois, Marquitas.
- Fica-te com Deus.

 
Obrigada pela sua visita. Volte sempre.

8 comentários:

Anabela Jardim disse...

Essa foto lembra bem a foto dos três pastorinhos de Fátima.

António José disse...

Olá Lourdes, boa tarde.
Acabei de impeçar nestas tuas Memórias,
que até estabordam da levada das emoções!
Nós (Alunos da Primária) no Sobral Gordo,
íamos muitas vezes, depois da Escola,a lenha p'ró forno e o local preferido era a
Lomba do Arrebentão(Frente ao Sobral Magro)
para ouvirmos o toque do vosso sino.
Nós ouvíamos dizer que era o toque das Trindades
e como o nosso sino não As tocava, até íamos a
lenha sem nos mandarem!!.
Vou andando,não sem aqui dizer que, Memórias
da Aldeia assim, nunca enfadam.

Idanhense sonhadora disse...

Lourdes , que lindo texto ..Adorei aqui e ali os seus salpicos com termos da Beira . Sabe , por ex: "baje " (é como se diz na Idanha ) eu só comecei a dizer feijão verde quando vim para Lisboa .OH!!!!,sucedeu-me isso com tantas palavras...Mas sabe , também me deixou com uma imensa saudade do toque a Avé -Marias...Porque será que já não se ouve ? Como eram belos aqueles momentos , em que anunciando o fim do dia , os homens descobriam as cabeças e as mulheres rezavam a Avé-Maria ...
Beijinhos
Quina

BALSAS disse...

Excelentes memórias, que até parecem o guião das nossas vidas,de todos que tiveram o previlégio de "realizar um filme " como este, ao ler e voltar a ler "memórias da aldeia", senti em algumas destas passagens algo que também fez parte da minha infância mais uma vez excelente ilustração da vida serrana. Obrigada por manter esta boa realidade viva.

Lourdes disse...

Anabela
Obrigada pela visita. Não etnho passado pelos "blogs" amigos por falta de tempo. O nascimento da segunda neta veio trazer um pouco mais de trabalho pois o filho e a nora moram longe e acabo por perder muito tempo no trânsito. Dentro em breve, tudo voltará à normalidade.
Beijinhos
Lourdes

Lourdes disse...

Olá António
Sê bem-vindo. Ainda bem que gostaste. As minhas memórias afinal são comuns muitos dos naturais da nossa região.
É realmente o toque das Trindades mas no Sobral Magro costumavam chamar-lhe o toque das Avé Marias. Hoje em dia já ninguém perpectua esta tradição, o que é uma pena pois a aldeia, aos poucos, acaba por perder a sua identidade.
Se não te enfadaste, vai passando porque as minhas memórias são muitas.

Lourdes disse...

Olá Quina
Sempre que posso gosto de usar nos postes os termos próprios da minha região. Como somos vizinhas é natural que existam palavras iguais ou parecidas. A sua baje e a minha baja ou baija como alguns diziam, deve ser a palavra vagem, deturpada pelo modo de falar das nossas gentes.
Quanto ao toque das Trindades, na minha ladeia já não tocam porque a população é idosa e já não se atrevem a subir os degraus da torre para ir tocar o sino. Na minha aldeia havia três toques: de manhã, ao meio dia e ao anoitecer.
Beijinhos

Lourdes disse...

Balsas
É verdade. As minhas memórias são, como disse ao António José, comuns a muitos daqueles que nasceram ou têm as suas raízes na serra. O modo de vida era semelhante. Os
caminhos, os trabalhos, os usos e costumes ligam-nos e ligam também as nossas memórias.
Obrigada pela visita.