segunda-feira, 6 de junho de 2011

Esta Tarde a Trovoada Caiu


- Sobral Magro , ontem debaixo de chuva e granizo -

 
 
Apesar de não parecer, estamos a poucos dias do início do Verão. O clima está bastante incerto e, se uns dias se faz sentir um  calor intenso e sufocante,  logo nos dias seguintes se registam fortes trovoadas, seguidas de chuva forte com queda de granizo dum tamanho preocupante que destrói as culturas já  em estado avançado.
Nos últimos anos temo-nos vindo a  habituar a estas situações fruto de anos e anos de desleixo e de ataques consecutivos ao ambiente que se tem vindo a reflectir nas condições meteorológicas.
Nestes dias assim, tristes e chuvosos, gosto de ficar sentada por detrás da vidraça, escutando a chuva a cair lá fora lendo boa poesia. 
É  de Alberto Caeiro (Fernando Pessoa) a poesia que hoje vos deixo. 
 
 
Esta Tarde a Trovoada Caiu 

Esta tarde a trovoada caiu Pelas encostas do céu abaixo Como um pedregulho enorme... Como alguém que duma janela alta Sacode uma toalha de mesa, E as migalhas, por caírem todas juntas, Fazem algum barulho ao cair, A chuva chovia do céu E enegreceu os caminhos ... Quando os relâmpagos sacudiam o ar E abanavam o espaço Como uma grande cabeça que diz que não, Não sei porquê — eu não tinha medo — pus-me a rezar a Santa Bárbara Como se eu fosse a velha tia de alguém... 
Ah! é que rezando a Santa Bárbara Eu sentia-me ainda mais simples Do que julgo que sou... Sentia-me familiar e caseiro E tendo passado a vida Tranqüilamente, como o muro do quintal; Tendo idéias e sentimentos por os ter Como uma flor tem perfume e cor... 
Sentia-me alguém que nossa acreditar em Santa Bárbara... Ah, poder crer em Santa Bárbara! 
(Quem crê que há Santa Bárbara, Julgará que ela é gente e visível Ou que julgará dela?) 
(Que artifício! Que sabem As flores, as árvores, os rebanhos, De Santa Bárbara?... Um ramo de árvore, Se pensasse, nunca podia Construir santos nem anjos... Poderia julgar que o sol É Deus, e que a trovoada É uma quantidade de gente Zangada por cima de nós ... Ali, como os mais simples dos homens São doentes e confusos e estúpidos Ao pé da clara simplicidade E saúde em existir Das árvores e das plantas!) 
E eu, pensando em tudo isto, Fiquei outra vez menos feliz... Fiquei sombrio e adoecido e soturno Como um dia em que todo o dia a trovoada ameaça E nem sequer de noite chega.


Alberto Caeiro




Obrigada pela sua visita. Volte sempre.


5 comentários:

Flora Maria disse...

Por aqui estamos longe da trovoada e das chuvas.
Mas a geada já chegou e a temperatura caiu com vontade.
Dizem que nessa madrugada ficou em torno de 0º !

Ando gorda de tanta roupa !

Beijo

Maria Teresa disse...

Lourdes:
Nada como ser o mestre de todos, não é? De fato, ficar em companhia de Caeiro em dia de trovoada parece uma bênção.
Beijos

Luís Coelho disse...

Aqui nem choveu nem trovejou, mas certamente ainda virá.
É sempre agradável uma boa leitura.
Enche-nos a alma e renova os pensamentos.

ELISABETE FERRO disse...

SANTA BARBARA(PADROEIRA DA MINHA SANTA TERRINHA).BJINHO

Anónimo disse...

Cara lourdes bobito poema adorei

Mas mais uma vez vou recordar a festa do Colcurinho é já dia 12 espero que nossa Senhora nos livre das trovoadas e das enchoradas a nossa serra está lembida não á nada que segure as águas.
Cumprimentos
Voz do Goulinho
António Assunção