quinta-feira, 10 de março de 2011

Uma Professora na Serra II

Dormira muito pouco. A ansiedade era muita e, quando o relógio tocou, saltou da cama com a mesma energia duma noite bem dormida.
Os pais fizeram questão de ir levar a "sua menina" ao local onde ela iria passar os próximos meses dando início à sua actividade profissional.
Fizeram-se ao caminho. A estrada da Beira era mais ou menos conhecida no entanto, quando tiveram que sair para uma estrada secundária, as coisas começaram a complicar-se.
Passaram por várias aldeias. Engraçadas mas um pouco estranhas para as suas vivências.  Entretanto, acabara o alcatrão e uma enorme nuvem de poeira perseguia o carro. De vez em quando sentiam-se apedrejados pois, as pedras soltas ao serem pisadas pelos pneus, saltavam batendo na parte inferior do carro.
Chegados a Pomares, a sede de freguesia, pensaram que a aventura estava a terminar, mas quando perguntaram qual a estrada para o Sobral Magro, foram informados que não havia e que teriam que fazer o resto do percurso a pé,  por um caminho de bois. "Não há nada que enganar. Sigam sempre em frente, não saiam por ramal nenhum" - dizia-lhes um homem simpático de sacho ao ombro.
Já estavam por tudo e iniciaram a caminhada.
" Esperem lá. Está ali um homem do Sobral e vocês vão com ele que assim já não se perdem."- Era a voz da pessoa que lhes dera a informação, a gritar atrás deles.
Mais aliviados foram apresentados a um senhor simpático que subia a rampa montado num macho.
 

Quando lhe disseram que ela era a professora que iria lecionar na escola da sua aldeia, mostrou um sorriso afável ao mesmo tempo que saltava do macho   dizendo:  "Minha senhora o caminho é longo. É melhor montar no macho para não se cansar."
Ela ficou sem palavras pois tinha receio de montar o animal e recusou educadamente. No entanto, aceitou que lhe transportasse a mala da roupa e o saco com alguns mantimentos. Foi aconselhada a trocar de sapatos, bem como a mãe, pois com os que traziam  não chegariam   à aldeia.
Deram início à longa caminhada. O senhor era bastante simpático e comunicativo e foi-lhes falando da aldeia e dos seus habitantes. Subiram e desceram encostas sucessivas sempre rodeados de denso arvoredo. Os pés já doíam e, nas descidas as pernas tremiam. Durante o percurso,  os seus sonhos  foram-se transformando, o cansaço tomou conta do seu corpo e arrependeu-se de não ter aproveitado a "boleia" mas, fez-se forte e resistiu.
Chegados à aldeia, encaminharam-nos  para a casa  que iria ocupar. Feita em xisto, escura e triste era muito diferente da sua em Coimbra, mas estava tão dorida que só pensava em descansar.
Entraram. Em frente da porta da entrada havia dois pequenos quartos com uma cama de ferro cada um , cobertas com colchas de algodão, impecavelmente brancas. Num deles havia uma mesinha e no outro uma pequena arca.  Subiram depois a escada que terminava numa  salinha onde havia  uma mesa encostada a uma parede, sobre a qual se destacava um candeeiro a petróleo e,  em volta da mesa algumas  cadeiras. Numa outra parede havia também  pequena arca.
Da sala passaram para a cozinha. Na lareira duas panelinhas de ferro e um púcaro de barro estavam prontos para cozinhar. Ao lado, sobre uma pequena mesa via-se uma máquina que funcionava com petróleo. Encostada a uma das paredes via-se uma cantareira com algumas peças de loiça e dois cântaros no  local próprio. Na outra, havia  um lavatório,  um jarro e um grande alguidar pendurado no frontal. Alguns banquinhos completavam o mobiliário.  Foi então informada que na aldeia não água ao domicílio , nem luz elétrica, nem saneamento.
Os pais aconselharam-na a partir com eles mas ela negou-se pois,  se as professoras anteriores lá conseguiram permanecer, ela também teria que conseguir.
Os donos da casa ofereceram-lhes então comida e bebida deram-lhes algumas informações sobre o modo de vida na aldeia e passaram o resto tarde a arrumar os seus pertences. Quando finalmente se deitou, o cansaço era tanto que adormeceu de imediato sem sequer ouvir os pais que, no quarto ao lado, combinavam a forma de a fazer demover da ideia de ficar "presa" naquela aldeia.
No dia seguinte, já restabelecida, de nada valeram os pedidos dos pais que  partiram, na companhia da senhora que distribuía o correio.
À medida que os via a afastarem-se,  vendo a cara chorosa da mãe de cada vez que  olhava para trás para lhe acenar, ainda vacilou e sentiu uma vontade quase irresistível de correr atrás deles. No entanto, o seu orgulho falou mais alto. As lágrimas rolaram-lhe pela face mas, ergueu a cabeça e fechou a janela com a força de  quem encerrou  um ciclo de vida.



Obrigada pela sua visita. Volte sempre.

6 comentários:

Luís Coelho disse...

Olá Lurdes.
Custou mas aguentou. Amor à camisola...e nesse tempo a Senhora Professora era sempre o centro de todas as atenções...
A maioria das pessoas respeitava-as como deusas e senhoras de bons conhecimentos e muita educação...

Parabéns pela partilha e pelas fotos.

Idanhense sonhadora disse...

Lourdes : agora compreendi o que uma vez ,uma colega mais velha , me disse :"o professor é também um missionário ..."
Valente professora essa que honrou e dignificou a "camisola". Ainda há quem diga mal de nós ...
A sério , fiquei muito comovida pela coragem dessa colega .
Beijos

Anónimo disse...

tinha que ser no Sobral....lool era o mesmo na Sorgaçosa....... já agora o sr. simpatico não era o tacão.? gosto de te ler, força rica prima.....beijinhos

Campista selvagem disse...

E assim se constroi um país.
lutar é o assombro dos resistentes, desistir fica para os fracos, destes não resa a hustória.

alfacinha disse...

Ultimamente, ao visitar duma casa museu com interior do início de 1900, um garoto perguntou ao guia " não vi uma televisão, onde está."
cumprimentos

Flora Maria disse...

Emocionante são esses relatos verdadeiros de pessoas de verdade, numa época em que o fazer era mais importante do que o lazer...

Gostei e estou esperando a continuação !
Beijo