A pobreza e a esperança são mãe e filha. Ao se entreter com a filha, esquece-se da mãe.
( Jean Paul )
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Descendo a íngreme encosta da serra, por uma estreita vereda, vergada pelo peso do molho de mato, descia vagarosamente uma jovenzinha. A saia desbotada e passajada em vários locais denotava que, quando chegou pela primeira vez ao seu corpo, já tinha passado pelo corpo das duas irmãs mais velhas. O avental cobria a maior parte da frente da saia evitando assim que ela se sujasse. Quase não podia com o molho e, de quando em quando, os pés escorregavam nas chinelas, ainda grandes para o seu pé, fazendo-a desequilibrar-se. Teve que agarrar com uma das mãos o mato que ladeava o caminho e, com a outra, o gancho da corda para não cair, nem deixar cair o molho.
Chegada a um poiso, depositou o molho e sentou-se em cima duma laje mais lisa, cansada e com as pernas a tremer devido à descida íngreme, que fizera até ali chegar.
Ao longe, ouvia-se o tilintar das campainhas e dos chocalhos do rebanho que as irmãs tinham a pastar junto à courela da ribeira, onde ceifavam erva.
Do outro lado da ribeira, descortinava-se o fumo que saía das lajes duma palheira, onde a mãe fazia o almoço. Sentiu fome. Meteu as mãos na algibeira do avental e, tirou um pedaço de broa que devorou avidamente, pois comera apenas umas sopas de café com broa migada, ainda era de alpardo.
O tempo era de extrema pobreza e na aldeia passava-se mal. No ano anterior tinha havido seca e a produção agrícola fora diminuta. A guerra eclodira na Europa e reflectia-se na vida de todos. O pai que migrara para Lisboa, nem todos os dias conseguia arranjar trabalho. Não havia contratos e trabalhava-se ao dia. O que ganhava nuns dias mal dava para se alimentar nos outros.
A vida era pesada para aquela jovem. Ali sentada, pensava que um dia aquela vida teria o seu fim. Como ela gostava de poder estar naquela altura a brincar com as amiguinhas, ou então na escola que tivera que abandonar, para ajudar a famíla nos trabalhos agrícolas. Mas, pensava ela que, um dia apareceria um príncipe encantado que casaria com ela e a levaria para Lisboa. Ah pois! Não queria uma vida como da mãe que ficara na aldeia, enquanto outras mulheres seguiram os seus maridos e, quando regressavam à aldeia, pareciam umas senhoras...
Retemperadas as forças, pegou no molho à cabeça e seguiu envolta nos seus pensamentos a caminho do curral, trauteando a cantiga:
Meninas vamos ao vira
Ai que o vira é coisa boa
Eu já vi dançar o vira
Ai, às meninas de Lisboa
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