quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Outros Natais

Terminado o chá, poisou a chávena e, vencida pelo cansaço, fechou os olhos.
Então começaram a  desfilar na sua frente imagens de Natais passados. 
Lá estava a sua grande família toda reunida em casa da avó Rita. As mulheres na cozinha terminavam as tarefas previamente divididas entre todas. 
A avó no fogão acabava de fritar as filhós, que a prima mais velha embrulhava numa mistura de açúcar e canela para depois as juntar às que já enfeitavam a mesa da sala. 
A  mãe tinha na sua frente uma grande bacia cheia de  batatas que descascara. As tias arranjavam  a hortaliça, enquanto uma outra dava os últimos retoques nas travessas de arroz doce, desenhando com canela algumas linhas, bolinhas e estrelas que  aguçavam, ainda mais, o apetite. 
As primas mais novinhas faziam uma enorme algazarra, disputando o tacho onde a tia fizera o arroz doce, para comerem a rapadura. 
Na   lareira, uma enorme panela de ferro cheia de água a ferver aguardava as batatas, a hortaliça e o bacalhau. Rosa mexia e remexia nas brasas enquanto a  mãe lhe chamava  a atenção pois  acabaria por   apagar a fogueira e atrasaria a ceia. 
Sentados à mesa, onde já estavam  a tigelada, as fatias paridas, o pão leve e as primeiras filhós, os homens da casa conversavam animados sobre as colheitas do ano,   as caçadas de Outono e outros assuntos da aldeia.


Assim que a comida ficava pronta, todos se sentavam nos seus lugares à mesa,   dando início à refeição que se prolongava mais tempo que o habitual. 
No final, as mulheres levantavam a mesa e seguiam para a cozinha onde umas lavavam e enxugavam a loiça, outras temperavam o cabrito e as outras procediam à limpeza e arrumação para, no dia seguinte, tudo estar em ordem para preparar o almoço de Natal.
Rosa e as primas iam então buscar os sapatos  que colocavam junto à lareira esperando que o Menino Jesus lá deixasse algum presentinho.
Este ambiente familiar, onde a  união,   animação  e   entreajuda reinavam, passeou pelos sonhos melancólicos de Rosa, até ao momento em que no relógio da sala bateram as duas horas, acordando-a.
Esfregou os olhos, levantou-se e dirigiu-se para o quarto, na esperança que o sonho voltasse e pudesse continuar a reviver os momentos felizes da sua infância.


Foto tirada da net

Obrigada pela sua visita. Volte sempre.


6 comentários:

Duh Franzen disse...

Como é bom recordar tempos tão preciosos que não voltam mais...
Bjos amiga!

Dulce disse...

A nostalgia dos Natais passados sempre dança na alma da gente, não é mesmo, minha amiga? Ah, como são doces essas saudades, como são belas essas lembranças que nos afagam!...

Beijos e um lindo dia para você.

João Celorico disse...

Olá, Lourdes!
Bela prosa ornamentando uma história de vida que infelizmente não era tão bela assim mas que nunca é demais lembrar.

Mesmo a vida, sendo bela,
no jardim em que vivemos,
não perde os espinhos dela.
Espinhos, todos nós temos!

Há por aí muita rosa, sofrida,
de quem o mundo nunca fala.
Louvamos os nadas desta vida
mas, todo o sofrimento se cala!

Mas são estas, e outras rosas,
e quase de esperança perdida
que, nas suas vidas dolorosas
nos dão, belas lições de vida!

São as rosas deste presente
e com um passado tão duro,
esquecidas de muita gente.
Só são lembradas, no futuro!

Abraço,
João Celorico

Luís Coelho disse...

A recordação de outros Natais deixa marcas que sempre nos acompanham.
Nem tudo é perfeito mas o sabor das nossas recordações nunca mais volta a ser o mesmo.

Artes e escritas disse...

Que delícia te ler. Um abraço, Yayá.

Flora Maria disse...

Adorável, delicado, bonito texto...

É real ou conto ? Não importa, pois gostei muito.

Tenho uns pratos muito parecidos com esses da foto que pensei ser da sua casa !
Nessa postagem coloquei o verde, mas tenho um marrom também:
http://www.floradaserra.blogspot.com/2008/07/lembranas-portugusas-com-certeza.html

Beijo