segunda-feira, 5 de março de 2012

A Hora do Correio

As dez horas já tinham batido há algum tempo no relógio da torre da capela. O Largo da Barroca, aos  poucos,  ganhou movimento. De todas as ruas e escaleiras apareciam   habitantes da aldeia que se vinham juntar à porta da loja do tio Pereira.
Na  varanda de sua casa, a tia Maria  observava as pessoas que  chegavam e tentava perceber as conversas que se iam iniciando. 
A criançada brincava na fonte,  e o bebedouro dos machos  era agora o palco das suas brincadeiras uma vez que  estava vazio, porque no Verão a água escasseava.
A dada altura, os miúdos desataram a correr fazendo uma grande algazarra e juntaram-se às mães.  Os olhos de todos viraram-se para uma das esquinas onde  apareceu a tia Urbana do Piódão, transportando o saco do Correio.
A tia  Maria desceu e juntou-se a todos quanto que se encontravam no Largo e seguiram a tia Urbana para dentro da loja.
Todos se calaram expectantes. O tio Pereira, de óculos na ponta do nariz, tirou as cartas do saco e   começou a ler cada  endereço em voz alta.
Quando ouviu o seu nome, a tia Maria esboçou um sorriso,  agarrou na carta e saiu apressada.
Era a mais velha das irmãs, cedo começou a ajudar os pais no campo e na educação dos irmãos e  nunca aprendera a ler. Dirigiu-se então a  casa da irmã mais nova para que ela lhe pudesse ler as notícias do seu homem, que se encontrava a trabalhar em Lisboa.
Esta era a altura  do dia em que se  sabiam as novidades de longe e, desta vez, a tia Maria também fora contemplada. Entusiasmada com as notícias, pediu à irmã que lhe   escrevesse a carta de  resposta. E lá ficaram as duas. Uma escrevia o que a outra lhe ditava.
" Espero que te encontres com saúde que eu e os meninos estamos bem graças a Deus... "
Terminada a escrita, a tia Maria voltou à loja do tio Pereira, comprou o selo que colou no envelope para, à tardinha, quando a tia Urbana regressasse com a correspondência  do Piódão, a sua carta seguisse na volta do Correio.


Obrigada pela sua visita. Volte sempre.

1 comentário:

Fernanda disse...

Amiga Lourdes,

Também escrevi muitas cartas para pessoas que até não me eram nada. Era como se partilhasse as suas vidas, uma espécie de "padre" que sabia e não dizia a ninguém nada de nada.
Lembro-me especialmente da minha ti-vó, meia irmã da minha mãe por parte da minha avó, muito mais velha que não sabia escrever, mas que era um verdadeiro doce e como ela me ditava as cartas.

Agora já não há cartas :(

Que pena.

Adorei recuar no tempo contigo.

Beijinho