terça-feira, 18 de outubro de 2016

À noite, com Cecília Meireles


(Já não se morre de velhice
nem de acidente nem de doença,
mas, Senhor, só de indiferença.)

  Como se morre de velhice
ou de acidente ou de doença,
morro, Senhor, de indiferença.

Da indiferença deste mundo
onde o que se sente e se pensa
não tem eco, na ausência imensa.

Na ausência, areia movediça
onde se escreve igual sentença
para o que é vencido e o que vença.

Salva-me, Senhor, do horizonte
sem estímulo ou recompensa
onde o amor equivale à ofensa.

De boca amarga e de alma triste
sinto a minha própria presença
num céu de loucura suspensa.

(Já não se morre de velhice
nem de acidente nem de doença,
mas, Senhor, só de indiferença.)
 

Cecília Meireles 

Obrigada pela sua presença. Volte sempre.





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