Ainda decorria a ceia e já ouvíamos vozes na rua. Passados momentos os degraus de madeira da escada rangiam e ouvíamos o riso abafado de crianças que, ao assomarem à porta da cozinha, tentavam "meter-nos medo". Nós fingámos que nos assustávamos e a gargalhada era geral. Eram as minhas tias e primas que chegavam para passar o serão em casa da avó. Logo fazíamos um "cabito" para cada um e a casa ganhava animação.
A avó dobava fitas que uma das tias fazia, rasgando pedaços de tecidos de roupas velhas que já não davam para remendar.
A outra aproveitava também alguns pedaços, cozia-os uns aos outros, fazendo coloridos sacos. A prima mais velha, enquanto fazia renda, tentava ensinar as mais novas a fazer cordão, iniciando-nos assim numa arte em que era exímia.
Enquanto estipulava o trabalho para o dia seguinte, o avô retirava da algibeira a onça de tabaco e o livrinho de mortalhas, com os quais fazia um cigarro com a mestria de muitos anos de vício. Depois, acendia-o numa brasa ainda acesa e fumava lentamente ao mesmo tempo que narrava as suas aventuras passadas no Seixal, onde trabalhara em novo, passando depois para as lendas e estórais de mouras encantadas, bruxas e lobisomens. Era aqui que eu muitas vezes me assustava.
As minhas primas, mais habituadas a ouvir estas estórias, já nem ligavam. Mas eu, que só permanecia na aldeia durante as férias de Verão, ficava cheia de medo e, até mesmo as nossas sombras, que a luz do candeeiro projectava na parede, me assustavam.
A avó dobava fitas que uma das tias fazia, rasgando pedaços de tecidos de roupas velhas que já não davam para remendar.
A outra aproveitava também alguns pedaços, cozia-os uns aos outros, fazendo coloridos sacos. A prima mais velha, enquanto fazia renda, tentava ensinar as mais novas a fazer cordão, iniciando-nos assim numa arte em que era exímia.
Enquanto estipulava o trabalho para o dia seguinte, o avô retirava da algibeira a onça de tabaco e o livrinho de mortalhas, com os quais fazia um cigarro com a mestria de muitos anos de vício. Depois, acendia-o numa brasa ainda acesa e fumava lentamente ao mesmo tempo que narrava as suas aventuras passadas no Seixal, onde trabalhara em novo, passando depois para as lendas e estórais de mouras encantadas, bruxas e lobisomens. Era aqui que eu muitas vezes me assustava.
As minhas primas, mais habituadas a ouvir estas estórias, já nem ligavam. Mas eu, que só permanecia na aldeia durante as férias de Verão, ficava cheia de medo e, até mesmo as nossas sombras, que a luz do candeeiro projectava na parede, me assustavam.
Finalmente, as tias e primas regressavam a suas casas, "alumiados" por uma pinha que acendiam no que restava da fogueira e nós íamos também para a cama.
Então, eu demorava a adormecer. As estórias do serão não me saiam da cabeça e acabavam por povoar os meus sonhos.
Então, eu demorava a adormecer. As estórias do serão não me saiam da cabeça e acabavam por povoar os meus sonhos.
Obrigada pela sua visita. Volte sempre.
3 comentários:
Os nossos serões cá em casa era só com a família. Pais e filhos.
A mãe fazia a ceia e o pai contava histórias. ouras vezes fazíamos jogos daqueles:
o rato roeu a rolha da garrafa do rei da Rússia........
Depois porque nos enganávamos riamos até rebolar no chão...
Obrigada querida Lourdes pela sua amizade e palavras sempre gentis! Um feliz e divertido fim de semana ( afinal é Carnaval!) :)
bjinhos, Joana Neves
http://joana-neves.blogspot.com
É uma coisa maravilhosa a solidariedade que existiu entre as pessoas naquele tempo. Muito aconchegante
cumprimentos de antuérpia
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