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terça-feira, 21 de outubro de 2014

Recordações da aldeia.

Sentada na soleira da porta da minha avó, olho a casa ao cimo da rua, completamente deserta há alguns anos.
Aquela era a casa onde funcionava uma das tabernas da aldeia e por onde passavam todas as pessoas da aldeia, quase diariamente.
Bem lá do fundo das minhas memórias saem,  em desfile, pessoas que fizeram parte da minha vida,  cujas lembranças guardo num cantinho do meu coração.
Lá vem o ti Custódio. Recordo-o com a sua figura bonacheirona e simpática  de sorriso rasgado no rosto, umas vezes, atrás do balcão pesando mercearias, ou vendendo copos de vinho e aguardente aos seus clientes, outras sentado à mesa a jogar às cartas com os amigos, intervalando para servir uma rodada paga pelos que perdiam. Parece que ainda consigo ouvir o som dos seus fortes punhos batendo na mesa de jogo, fazendo sinal ao seu parceiro, ou as sonoras gargalhadas que soltava quando contava alguma graça.
Por vezes, sentava-se na soleira da  porta dos machos,  conversando com quem passava, contando as suas aventuras nas longas viagens que fazia pelas serras, a caminho de alguma feira ou comprando e vendendo pinhais.
Recordo ainda, ao fim das tardes, vê-lo passar, com os machos à rédea, a caminho da fonte onde levava os animais para lhes saciar a sede.
Era o regedor da aldeia, sendo uma pessoa amada e respeitada por todos.
Atrás vem a mulher, a tia “Maria da Taberna”, prima da minha mãe,  uma pessoa simples, simpática e um doce de senhora, sempre conformada, mesmo até com as agruras que a vida lhe atravessou no caminho. Era uma mulher de trabalho. Para além da fazenda que cultivava, cuidava da casa e sempre que o marido jogava com os amigos ou estava fora em negócios, atendia também os clientes do estabelecimento, sempre com um sorriso para todos.
Finalmente, chega a Isilda, uma grande amiga que nos deixou bem cedo.  Era uma menina meiga  e doce como a mãe, mas  esperta e com jeito para o negócio como o pai.
Raramente a vi a brincar com as outras meninas pois, assim que saiu da escola, começou a ajudar os pais na taberna. Teve que crescer muito cedo. Mesmo em dias de festa, raramente vinha ao Largo da povoação, pois eram os dias em que mais se trabalhava na taberna e, todos os braços eram pouco para servir os clientes habituais e forasteiros.  Mais tarde, foi ela quem ficou com o telefone público a seu cargo.
Muito gostava eu de a ver a atender o telefone:
“Está lá? Fala do 121 de Pomares. Faço já a ligação ao Sobral Gordo, um momentinho só.” Cheia de destreza, ligava uma cavilha, dava à manivela e voltava a falar: “ É do Sobral Gordo? Como está senhora Rita? Atenda uma interurbana de Lisboa”. E ligava nova cavilha.
Na aldeia não havia mais telefones e, quando telefonavam para alguém da terra, era ela que tinha que ir dar os recados aos destinatários,  estivesse sol ou chuva.
Como estava  presa o dia inteiro ,  era com ela que eu passava muito do tempo quando, em adolescente , passava as férias de Verão na aldeia. Éramos amigas e confidentes.
Após o casamento, cada uma seguiu destinos diferentes e raramente as nossas férias coincidiam. No entanto, quando nos encontrávamos, era o reviver de memórias e a partilha dos acontecimentos das nossas vidas, tal como acontecera no passado. Apesar de distantes, a amizade manteve-se.
Deus levou-a muito cedo mas, estou certa que um dia, nos voltaremos a encontrar e a nossa amizade continuará.

 


Obrigada pela sua visita. Volte sempre.

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Encontrei-me com o Passado



Olhando aquele retrato mal consigo conter  a emoção. Dói a alma ao ver aqueles campos desertos. São caminhos que percorri que não são mais os mesmos. Hoje estão quase impenetráveis e  a desertificação é cada vez mais visível. Encontrei-me com o passado e a  nostalgia ataca-me forte. A saudade dói e, por momentos, aquele local parece ganhar vida.
Vejo-me  a rabujar pelas topadas nas penedas e pelas ervas da beira do caminho que me mordem as pernas, na descida a caminho do pontão da ribeira, Do outro lado da ribeira  aguarda-me uma penosa subida, numas escaleiras rasgadas numa fraga  de xisto. Atrás de mim, a tia Leonilde incentiva-me carinhosamente. Avisto já o Coberto e o ti Gaspar sentado à porta da palheira, com uma malga de café sobre os joelhos e um naco de broa na mão. Damos-lhe a salvação e continuamos o nosso percurso. Uns longos metros após a subida,  já avisto a tia Delfina junto à palheira e o  ti Zé Miguel com o seu rebanho.

A visão das pessoas dá-me mais alento e prossigo,  saltando sobre os montes de borralho, levantando uma nuvem de pó à minha volta. Lá está a tia Assunção com os filhos, no meio do milho aproveitando as poucas horas de rega.  A minha tia já vai a chegar e, daí a nada, corta-lhe  a água.

Na Feiteira, do outro lado da ribeira, lá está o ti Cristiano a pôr o mato no curral das cabras, enquanto a Marquitas, a Isabel e a Natividade brincam com os chibitos.

Já avisto o Cabeço e oiço a tia Silvina a falar. Rapidamente, desço o caminho para a palheira,  seguindo o cheirinho a café que a minha avó está a fazer. A tia Silvina chama-me. Quer saber notícias dos meus pais  e dá-me notícias do Sobral Gordo. Entro na palheira, onde  o meu avô já está com o leitinho acabado de ordenhar, para juntar ao meu café.

Sinto-lhe o cheiro, mas o retrato continua ali, sem vida a mostrar-me a verdade nua e crua e, uma lágrima teimosa encontra caminho e escapa pelo meu rosto abaixo.



Obrigada pela sua visita. Volte sempre.



terça-feira, 20 de novembro de 2012

Por detrás da vidraça...


Acordei num daqueles dias meios encobertos e frios em que a preguiça, tomou conta de mim. Fiquei junto à janela, no silêncio de casa, espreitando pelas vidraças. Deixei os meus pensamentos partir em busca das minhas mais doces recordações. Logo a saudade me veio fazer companhia. Sim, porque nestas alturas, a saudade é sempre  boa companheira duma alma nostálgica, sonhadora e sensível.
Percorro os caminhos do meu passado e vejo-me na minha infância.
Não tinha computadores, nem televisão, nem brinquedos ou jogos. Tudo tinha que ser inventado. Na Ribeira Mourísia, na fazenda dos meus avós, não tinha outras crianças com quem brincar e tudo era muito tranquilo. Vestia-me com as roupas da minha tia e imitava-lhe os movimentos para parecer  adulta. As penedas mais lisas serviam de  casa de bonecas. Uma boneca de trapos feita pela minha avó era a minha única companhia.  Amassava terra com água para fazer bolinhos e qualquer pedrinha circular servia de prato, sendo os móveis umas pedras maiores  com formatos diversos. Era tudo de “faz de conta”.
Mais tarde, após regressar das suas fazendas, a garotada juntava-se no largo da povoação e a tranquilidade que reinara na aldeia, durante a maior parte do dia, desaparecia como por encanto, dando lugar  a gritos e risadas estridentes,   que ecoavam alegremente pelas ruas e barrocas.
Então, as imagens começaram a desfilar na minha lembrança e pararam no Largo da Barroca no Sobral Magro. Lá apareceram todos os meus amigos de criança. Jogávamos "à  penamalha",  "à rolha",  ou "às escondidas".  Aproveitávamos  o lavadouro vazio, uma em cada canto e consegui ouvir a voz da  Hortensita gritar: " dá-me lume". Respondeu logo a saudosa Isabel: " vai àquela casa que te fume". E nós corríamos e gritávamos tentando trocar de canto, umas com as outras, sem sermos apanhadas. Eram as brincadeiras duma época em que não havia dinheiro para brinquedos mas, em que convívíamos e divertíamo-nos  muito com pequenas coisas. E, não éramos menos felizes...

 
Lá estava o "Coneca" encostado à parede duma casa, rindo e comentando as nossas brincadeiras com o seu modo de articular as palavras, para muitos impercetível. "Fó Mialu, fó. Aquê malano panha ti" (Foge Maria de Lurdes, foge. Aquele malandro apanha-te).
Tudo parecia tão real que, por momentos, me  pareceu ouvir o som da minha própria voz chamando: “Avó, avó!”.
Senti então uns bracitos que me envolveram carinhosamente e percebi que era a voz da Leonor que me chamava “Avó, avó! Que estás a fazer aí a olhar para a rua? Anda brincar comigo!”
 
Foto: Net

Obrigada pela sua visita. Volte sempre.
 


 

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Festa na Aldeia IV

 
Segunda feira acordei estremunhada com uma descarga de foguetes. As pálpebras pesavam e teimavam em  se fechar apesar da claridade do dia entrar pela porta e inundar o quarto de luz. Enrosquei-me no lençol tapando a cabeça mas, as vozes e o ruído da loiça, vindas da cozinha,  martelavam na minha cabeça.
Saltei da cama a resmungar. Tinha dormido muito pouco porque  o baile da festa acabara a altas horas da madrugada.
Já na cozinha, a minha mãe disse-me que a minha prima mais velha já tinha ido roçar um molho de mato para o curral das cabras. Incrédula, engoli o café e fui-me arranjar. Era dia de piquenique,  o dia em que eu mais me divertia nas festas. Aos poucos fui acordando e o mau humor desapareceu.
 
 
Logo após o almoço, homens e  rapazes  juntaram-se para afinar os instrumentos e iniciaram a arruada. Eu  acompanhava as crianças da minha idade, atrás do grupo percorrendo as ruas da aldeia em enorme algazarra, parando à porta de cada casa, onde apareciam os proprietários que, para além de distribuírem um copo de vinho a cada elemento do grupo, ofereciam o que podiam   para o piquenique. Eram sempre produtos da sua lavra:  batatas,  nabos,  azeite,  vinho... Só o bacalhau era oferecido pelos proprietários das tabernas da aldeia.
 
 
À medida que as cestas e as sacas se enchiam, os produtos eram  levados para o Largo da Barroca, onde se encontrava um grupo de senhoras que, após   lavarem  grandes panelas de ferro e as colocarem com água junto a uma grande fogueira, começavam a descascar  batatas e a arranjar os nabos.
 
 
Quando terminava a arruada, já a comida estava pronta. Por todas as ruas viam-se chegar as senhoras carregadas com a loiça que distribuíam pelos familiares.


Cada um seguia para junto das panelas, serviam-se e espalhavam-se pelo largo. Em pé, sentados em bancos, na soleira das portas, nas paredes do lavadouro ou mesmo nalguma pedra maior, o bacalhau com batatas e nabos, desenjoava a fartura de carne comida na véspera.


A refeição terminava muitas vezes à luz do candeeiro. Seguia-se -se o bailarico animado pelos artistas da terra  que  terminava, muitas vezes, com o raiar da aurora.
 
 
Obrigada pela sua visita. Volte sempre.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Romagem

Acordei com a voz da Marquitas que me chamava da sua janela, separada da minha apenas pelo estreito quelhoto.
Ergui-me dum salto, mexi os folhos da cama e puxei as orelhas aos lençóis. Já à cozinha, engoli uma malga de café, lavei os olhos, agarrei no cesto onde tinha a bucha arranjada na véspera e desci as escadas a correr.  A Marquitas e as mais já estavam à minha espera no Largo da Barroca.
Íamos para a Romagem. O Vale de Maceira ficava longe e ainda era de alpardo.
Umas atrás das outras seguimos por uma estreita vereda. Aqui e além, uma topada dava origem a pragas e algumas palavras menos próprias de quem vai a caminho duma festa religiosa. Todas riam às gargalhadas.
Chegámos à entrada do Vale de Maceira. Uma poça com água serviu para nos refrescarmos e lavarmos os pés sujos de borralho do caminho. Com a travessa do cabelo, ajeitámos as melenas soltas e compusemos os carrapitos.


Já prontas, seguimos para a aldeia repleta de gente. Por todo lado se viam camionetas vindas de localidades muito afastadas, carrosséis e outros divertimentos. Cruzando o recinto, vários grupos de tocadores afinavam os seus instrumentos enquanto os cantadores aqueciam as vozes. Pelas encostas laterais ao Santuário havia tendas de comes e bebes e muitos artigos de feira. Espalhadas pelo chão as mantas de fitas serviam para colocar uma toalha com a bucha e as pessoas se sentarem em toda a volta.
Escolhemos também um local onde estendemos a nossa manta. A Marquitas colocou em cima uma bonita toalha de linho e os cestos da bucha.
Aos poucos, chegavam familiares e amigos  que tinham ido de véspera e ali passaram a noite e se juntavam ao nosso grupo. Enquanto os mais velhos punham em dia as novidades, nós fomos dar uma volta às barraquinhas para fazer compras. A Marquitas comprou uma bonita colcha para o enxoval e um pião para o irmão. Eu um bolo doce para levar à minha avó.
A Marquitas prometera pelo Manel, o seu conversado, que se ele voltasse da guerra de Angola, iria cumprir uma romaria à Nª Sª das Preces,  no Vale de Maceira. Ele também prometera transportar o andor de Nossa Senhora na procissão e viera de Lisboa para juntos cumprirem as promessas.
Assim que ele chegou, espalhámos sobre a toalha os mais variados petiscos: bacalhau frito, coelho e galinha assados, queijo, chouriço e broa. Para beber, não podia faltar o garrafão de vinho. Eu fui com a Marquitas à barraquinha mais próxima comprar gasosas, laranjadas e pirolitos.
Depois foi comer, beber e conviver. Quando perto passavam amigos doutras aldeias, eram logo convidados para se juntarem ao nosso grupo. Depois de bem comidos e melhor bebidos, os tocadores começaram a mostrar a sua habilidade, tocando as músicas mais conhecidas da região. Espontaneamente outros começaram a cantar e os restantes a dançar. Algumas raparigas dançavam umas com as outras mas logo apareceram rapazes de outras aldeias para desapartar e a roda alargava à medida que mais pessoas chegavam, motivadas pela música bem tocada e pelas exímias vozes que davam um maior brilho ao baile.
O tempo passou rápido. O baile foi interrompido pelo toque do sino. Então, fez-se silêncio, a fé envolveu-nos  enquanto participámos na Santa Missa.


A procissão foi uma linda e comovente cerimónia. O andor muito bem enfeitado de lindas flores passou junto de nós. Ajoelhámos à sua passagem e lá ia o Manel, envergando o seu fato de magala. A Marquitas, a seu lado, limpava-lhe carinhosamente o suor que lhe escorria pelas faces coradas, devido ao intenso calor daquele final de tarde estival.
Depois foi a debandada geral. As camionetas estacionadas no recinto iniciavam o percurso de regresso, com alguma dificuldade pois a estrada depressa ficou repleta com os grupos de pessoas que seguiam a pé para as suas aldeias. À saída do Vale de Maceira descalçámos os sapatos, calçamos de novo os chinelos e aumentámos o passo, pois a noite não tardava.



Obrigada pela sua visita. Volte sempre.



segunda-feira, 4 de junho de 2012

Festa na Aldeia II


Terminada a festa religiosa, era chegada a hora da grande refeição do dia e, todos seguiam para suas casas. A acompanhar a minha família tínhamos sempre a presença dos senhores padres ou de alguns músicos. Nessa altura, todas as iguarias preparadas na véspera vinham para a mesa com os respectivos acompanhamentos preparados na altura. A refeição decorria sempre com grande animação mas eu, ansiosa, achava que nunca mais acabava. Não conseguia comer de tudo e cansava-me por estar tanto tempo sentada à mesa, a ouvir conversas de adultos. Quando finalmente  o  jantar  terminava, as mulheres levantavam a mesa e dirigiam-se para a  cozinha para lavarem e arrumarem a loiça. Os homens seguiam para o largo e aglomeravam-se junto ao bufete onde, entre dois dedos de conversa  pagavam rodadas uns aos outros. Era nos dias de festa que a mocidade mais se distraía. De outras aldeias chegavam forasteiros que percorriam vários quilómetros a pé, para participarem nos festejos.
Ao lado, na quermesse, as rifas faziam a alegria dos mais pequenos. Era ali que me juntava com as minhas primas e amigas e ficávamos  a ver  desenrolar  rifas e a descobrir o prémio que saía a cada uma.
O largo ia-se enchendo de gente e, aos poucos, os elementos da banda chegavam também do jantar,  posicionando-se em cima do coreto improvisado  e começavam a tocar. Logo os pares  iniciavam o bailarico.
As raparigas da aldeia  juntavam-se perto da  quermesse aguardando  que os rapazes  as chamassem para dançar. Eu  seguia os seus movimentos, em especial os da minha prima mais velha, Era uma bela rapariga. Os cabelos negros enrolados num carrapito deixavam ver uma cara bonita e uns olhos risonhos e expressivos.
Eram muito bonitas todas as raparigas da aldeia, mas para mim, ela era sem dúvida a mais bela de todas.  Eu,  ainda uma gaiata, seguia-lhe os passos enquanto  ela dançava, pensando se um dia eu seria como ela e se dançaria tão bem assim.
A animação prolongava-se até ao por do sol, hora em que a banda terminava a sua actuação e regressava à sua terra.
Nessa altura,  todos seguíamos para casa para  cear e assim reforçar as forças para uma noite de bailarico.


Mais uma vez se repetiam as iguarias que normalmente só faziam parte da nossa refeição nos dias da festa. Do largo chegava-nos agora o som da aparelhagem sonora que tocava as músicas que só costumávamos ouvir na pequena telefonia a pilhas que o meu pai trouxera de Lisboa. A  sala,  muito mais iluminada que nos outros dias, pela energia eléctrica produzida pelo  gerador da aparelhagem, até parecia maior.
Por fim, voltávamos para o Largo e o baile recomeçava. Em redor do largo, as velhotas sentavam-se estrategicamente em locais de onde pudessem  observar tudo o que se passasse durante o baile.
Entretanto,  aproveitando o momento em que havia mais pares a dançar, o meu pai dava início ao leilão. 
Este era o momento que mais me irritava na festa pois não conseguia entender por que razão se interrompia o baile, no melhor da festa.
Chegada a meia noite, a animação chegava ao rubro. Uma descarga de fogo de artifício punha todas os  presentes de cabeça no ar, boquiabertos, seguindo as estrelas coloridas que se espalhavam e desapareciam no céu.
O baile prosseguia até altas horas da madrugada e, muitas vezes, os intervenientes seguiam logo para as suas fazendas, sem sequer descansarem um pouco. Tinham que aproveitar bem o tempo pois aproximava-se o piquenique e com ele o final da festa.
Obrigada pela sua visita. Volte sempre.


quarta-feira, 2 de maio de 2012

Memórias da Serra: Festa na Aldeia I



A festa começava muito antes do dia marcado, para se fazerem os preparativos e nada falhar na altura própria. As tardes quentes de Verão eram passadas junto à casa da tia Maria do Céu, onde as mordomas se juntavam. Umas cortavam papel  e faziam  as rifas enquanto outras recortavam coloridas bandeiras. Das mãos habilidosas das mais prendadas  apareciam   lindas flores de papel que logo suscitavam o interesse na sua aprendizagem. Enquanto isso, a conversa animava e  eram descobertas muitas novidades e até segredos da aldeia. Nestes dias fazíamos uma  festa  e passávamos momentos de agradável convívio e boa disposição. 
Vinha o dia de  ir "pedir para a quermesse" e era outra festa. Novamente em grupo, seguíamos de casa em casa percorrendo toda a povoação e os casais. Éramos sempre muito bem recebidas e de todas elas trazíamos uma prendinha para as rifas da quermesse ou para o leilão.
Na semana anterior à  festa, o trabalho redobrava.  Os rapazes colaboravam nos preparativos indo ao baldio cortar os  pinheiros necessários para fazerem o coreto, a quermesse, o bar, e os vários os arcos que se espalhavam pela população. Terminado o trabalho, iam a casa buscar os instrumentos musicais e faziam a sua festa  em arruadas pelas ruas da povoação e por muitas das suas adegas.


Era de novo a vez das mordomas. Com toda a panóplia de bandeiras, flores, festões e outros enfeites, ornamentavam o melhor que podiam os arcos, as ruas e o largo.
Nas ruas cheirava a festa. O odor  a chanfana vindo dos fornos misturava-se com o  dos coscoréis vindo das cozinhas onde se preparavam  as iguarias para as refeições dos dias de festa.
Na véspera do grande dia,  chegavam os foguetes pela mão  do tio Zé Matias da Relva Velha. A partir de então o seu som soava nos ares ecoava nas barrocas,levando às aldeias vizinhas a notícia da festa.
Era também o dia da chegada  da aparelhagem sonora, alugada ao  Sr. Ceiroco de Arganil. Como a povoação não tinha luz eléctrica, trazia um gerador de energia que, para além de proporcionar música através dos seus altifalantes, trazia também iluminação às ruas da aldeia, durante os dias da festa.
Todos estes preparativos eram já uma festa e a aldeia ganhava uma vida diferente. Os seus  habitantes  quebravam  rotinas e dedicavam-se à folia deixando   para segundo plano o árduo trabalho do campo.


Obrigada pela sua visita. Volte sempre.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Memórias da Aldeia

De repente senti-me uma jovenzinha e como que por magia vi-me na barroca de S. Domingos na companhia da miudagem da minha idade.
Era ao fim da tarde, depois de chegarmos das fazendas, que nos  juntávamos ao pé da mina, onde acompanhávamos os mais velhos que iam acartar água para casa. Enquanto iam e voltavam aproveitávamos cada minuto com as brincadeiras próprias da idade e da aldeia.  
Os rapazitos faziam autênticos malabarismos com o arco e a gancheta em corridas até à capela. As meninas jogavam à rolha, fazendo uma grande algazarra.  Quando alguma delas salvava uma companheira de brincadeira, soltavam sonoras gargalhadas que ecoavam na barroca e continuavam a perseguição em perigosas corridas, que muitas vezes terminavam num estrondoso trambolhão. Depois vinha a berraria provocada pelas dores e esfoladelas. Logo os pais  acorriam e quando se certificavam que as feridas não eram graves, ralhavam com eles aumentando a barulheira.
A aldeia, tão calma e quase deserta durante as horas de trabalho, ganhava vida e animação.
As raparigas que aguardavam a sua vez para encherem o cântaro na mina de chafurdo, cochichavam e riam umas com as outras, de cada vez que  se aproximava algum dos rapazes da terra, que se vinha juntar ao grupo, na esperança de espreitar ou mesmo  namoriscar alguma delas.
As mulheres  aguardavam a sua vez sentadas em fila e não tiravam os olhos deles, na esperança de   conseguir tema de conversa para  quando se juntassem com as mais.

De repente, ouvi alguém gritar o meu nome. Era a tia Leonilde que me chamava.
Corri para casa entrando de rompante na cozinha. A tia, a avó e o avô  aguardavam-me sentados num banco, em frente à mesa onde a ceia fumegava.
- Foto montagem recreando a cena da época -


Obrigada pela sua visita. Volte sempre.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Photobucket

Naquele  Domingo de Ramos,  o Sobral  ganhava  mais  vida porque as  povoações  vizinhas despovoavam-se para virem  benzer o seu ramo à nossa aldeia, uma das poucas que tinham Missa Dominical.
Pela encosta da Malhada  viam-se a descer  grupos de  homens  e mulheres vindos do Porto Silvado.  Do caminho do Covão outros  grupos surgiam  uns do  Soito da Ruiva  e alguns do Sobral Gordo.  Todos  passaram por ela,  trazendo  um  belo ramo  na mão, deixando  à sua passagem um agradável odor a louro. 
Sentada na  soleira  da porta da  casa da avó,  já pronta envergando o seu vestido novo e de laçarote  adornando  os  belos caracóis  que  a mãe lhe  arranjara  logo de  manhã,  virava e revirava  um raminho que, apesar de quase não lhe caber  na minúscula mão, achava não ser suficientemente vistoso para levar naquele dia de festa.
Para ela, um ramo bonito tinha que ser grande como o do “Coneca” que passara por ela há algum tempo  a caminho da Capela.
A mãe dissera que era pequeno porque ela também era pequenina, mas não ficara convencida. Gostava dum ramo grande. Se não lhe coubesse numa mão, segurava-o com as duas.
Quando os familiares desceram, levantou-se, sacudiu o vestido, compôs os caracóis e seguiu-os para se juntarem ao cortejo a caminho da capela naquele Domingo de Ramos. 
À porta da capela lá estava ele. Um ramo lindo, grande e farfalhudo nas mãos do “Coneca”, que o agitava sorridente e orgulhoso, pois também ele achava que o seu era o ramo mais bonito de todos.



Obrigada pela sua visita. Volte sempre.

quinta-feira, 15 de março de 2012

Memórias da Serra: O Parto

Pela ladeira vira descer apressada  uma jovem  que se precipitou de rompante pela porta da escola. Vinha  afogueada e pelo seu semblante percebi  que algo acontecera. Impaciente, interroguei-a para saber o porquê daquela visita inesperada.
Lá me foi explicando que a irmã, grávida no fim do tempo,  estava na hora de dar à luz e  o médico, que me conhecia de pequenina, me mandara chamar  para o caso de necessitar de ajuda, ou se fosse  preciso algum medicamento eu poder ir à farmácia, pois era a única pessoa na aldeia que tinha carro.
Como estava quase na hora do almoço saímos um pouco mais cedo e lá fui com a mensageira estrada acima, dizendo mal da minha vida pois nunca tinha tido muita coragem e afligia-me sempre que  via sangue.
À chegada o Dr. Armando deu-me algumas indicações e eu fiquei na cozinha pedindo a todos os santinhos para que tudo corresse bem e  eu não tivesse que assistir ao parto.
Um choro de bebé despertou-me dos meus pensamentos. Corri para a porta do quarto e observei os movimentos rápidos do doutor mas, pelo seu semblante preocupado, apercebi-me que algo correra mal.
O Dr. Armando saiu para o corredor e pôs-me a par do sucedido. O recém-nascido apresentava uma malformação congénita onde se via uma fenda numa vértebra pondo a medua a descoberto (espinha bífida aberta). O caso era muito grave  e aquele pequeno inocente teria pouco tempo de vida. Fiquei completamente paralisada perante tal evidência.
Os pais logo pensaram em  baptizar o bebé e quiseram que eu fosse a madrinha, ao que eu acedi prontamente. Alguns dias depois do baptismo, acabou por falecer deixando os pais completamente destroçados.
Quis o destino que a minha mãe fosse sepultada numa campa mesmo ao lado do local em que ele fora sepultado. Ainda hoje, quando visito a sepultura da minha mãe, recordo este acontecimento que ficou tristemente  marcado na minha memória e deposito sempre  no local algumas flores em memória deste  meu afilhado.

Photobucket



Obrigada pela sua visita. Volte sempre



quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Entrudo na Serra

Naquele Domingo Gordo, encontrava-se sozinha, sentada  no quentinho da lareira na casa da aldeia, absorta nos seus pensamentos. Os  olhos fixos no rasto de fumo que subia a caminho da chaminé, ajeitava  maquinalmente as cavacas que ardiam com grande intensidade, enquanto  pensava como era calma a época do Carnaval na aldeia.
Habituada aos Carnavais  da cidade de que não gostava, bebia cada momento daquele momento de tranquilidade, quando foi acordada dos seus pensamentos com o ruído vindo da rua.
Vozes e gritos de crianças, barulho de latas a bater, uma confusão de sons que a fez levantar e chegar à janela.
No Largo da Barroca, um grupo de crianças soltava  sonoras gargalhadas, correndo atrás dum grupo de mascarados  munidos de latas e paus,  segurando  os trapos que lhes tapavam o rosto. Num outro  grupo, os seus elementos, em grande gritaria, tentava descobrir-lhes a cara e adivinhar quem era quem.
Naquele momento, sentiu-se impelida a participar nas brincadeiras. Qualquer coisa a empurrava. para a rua.
Foi ao guarda fatos onde a mãe guardava roupas que já não se usavam ou já não serviam e vestiu-se da forma mais trapalhona  que conseguiu.  Enfiou uma meia de vidro na cabeça e,  saiu para a rua para participar nas brincadeiras próprias do Entrudo na aldeia. Ali podia brincar sem receio. Todos eram uma família e as brincadeiras eram espontâneas.
Nessa altura, começou a sentir todo o entusiasmo, percebeu o verdadeiro sentido das brincadeiras e integrou-se no grupo de mascarados. Meteu-se com as pessoas que ouvindo a algazarra assomavam  à janela, bateu às portas das casas fechadas, abriu as que tinham a chave na porta, entrou em todas as adegas  seguindo  o grupo e, embora não bebesse, petiscava aqui e ali uma rodela de chouriço, uma tira de presunto, uma sardinha de conserva com cebola, uma lasca de bacalhau salgado, ...  
E, assim passou uma tarde animada, divertindo-se com todos sem ninguém a reconhecer.
Alguns foram ficando pelo caminho não resistindo aos exageros com a bebida mas, para ela, o divertimento não parou com o anoitecer. Depois da ceia, o baile na casa do tio Zé Morgado, foi o ponto alto do dia, animado pelo tio Inocêncio que  com a sua concertina tocou as modas tão ao gosto dos resistentes.
Chegou ao final do dia cansada mas entusiasmada e divertida. Descobrira o verdadeiro sentido  carnavalesco que tinha dentro de si, o Entrudo.

Obrigada pela sua visita. Volte sempre.
 

 

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Memórias da Aldeia: Serões

Ainda decorria a ceia e já ouvíamos vozes  na rua. Passados momentos os degraus de madeira da escada  rangiam e ouvíamos o riso abafado de crianças que, ao assomarem  à porta da cozinha, tentavam "meter-nos medo". Nós fingámos que nos assustávamos e a gargalhada era geral. Eram as minhas tias e primas que chegavam para passar o serão em casa da avó. Logo  fazíamos um "cabito" para cada um e a casa ganhava animação.
A  avó dobava fitas que uma  das tias  fazia, rasgando pedaços de tecidos de roupas velhas que já não davam para remendar.
A outra aproveitava também alguns pedaços, cozia-os uns aos outros, fazendo coloridos sacos. A prima mais velha, enquanto fazia renda, tentava ensinar as mais novas a fazer cordão, iniciando-nos assim numa arte em que era exímia.
Enquanto estipulava o trabalho para o dia seguinte, o avô retirava da algibeira a onça de tabaco  e o livrinho de mortalhas, com os quais fazia um cigarro com a mestria de muitos anos de vício. Depois, acendia-o numa brasa ainda acesa e  fumava lentamente  ao mesmo tempo que narrava as suas aventuras passadas no Seixal, onde trabalhara em novo, passando depois para as lendas e estórais de mouras encantadas, bruxas e lobisomens. Era aqui que eu muitas vezes me assustava.
As minhas primas, mais habituadas a ouvir estas estórias, já nem ligavam. Mas eu, que só permanecia na aldeia durante as férias de Verão, ficava cheia de medo e, até mesmo  as nossas sombras, que a luz do candeeiro projectava na parede, me assustavam.
Finalmente, as tias e primas  regressavam a suas casas, "alumiados" por  uma pinha que acendiam no que restava da fogueira e nós íamos também para a cama.
Então, eu demorava a adormecer. As estórias do serão não me saiam da cabeça e acabavam por povoar os meus sonhos.
 

Obrigada pela sua visita. Volte sempre.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Memórias da Aldeia - Ceia na Casa da Avó

Chegámos a casa. A avó rodou a chave que estava na porta desde que saíramos  de manhã cedo e entrámos.

A tia tirou o cântaro da cantareira e seguiu logo para a fonte. O avô foi arrumar as cestas,  cestos, sacas, cordas e podões na loja, onde ficariam até ao dia seguinte. Agarrou num molho de cavacas e torgas que colocou no canto da lenha  donde a avó já tinha tirado alguns gravetos e chamiças e se encontrava em frente à lareira num banco baixinho, abanando a abada do avental, tentando atear uma brasa que ainda resistia desde o jantar. Sentada no sobrado da cozinha funda, eu observava a pequena chama que começava a libertar-se da brasa e incendiava as chamiças que a avó lhe encostava.  O fumo começava o seu percurso  a caminho das frestas das lajes que cobriam  a casa e ganhava diversas  formas atravessando o fumeiro e o caniço vazios e prontos a receber os respectivos  produtos.
Na copeira, a ténue luz do candeeiro passava já despercebida perante o enorme clarão que entretanto se formara na fogueira fizendo com que as batatas já fervessem na panela de ferro.

A  avó juntou-lhes algumas folhas de nabos que apanhara durante a tarde no meio do milho, enquanto regava e a tia, que entretanto chegara da fonte, afastava com umas tenazes algumas brasas sobre as quais começou a colocar sardinhas.
Pendurado no caldeirão, suspenso num barrote que segurava as lajes, o caldeiro  aguardava os bocados de botelha que a avó se preparava para cortar e  onde juntaria  mais tarde os troços dos nabos e os restos da refeição, que serviriam de  alimento ao bácoro que comprara há tempos  na feira de Avô.
O cheirinho das sardinhas assadas que começava a libertar-se  despertava-me os sentidos e a água crescia-me na boca, agora com grande intensidade.
Puxei a tripeça para a junto de nós, coloquei-lhe a broa e os garfos de ferro em cima. A avó escoou as batatas e os nabos  e despejou-os numa bacia que colocou no centro da tripeça. A tia colocou as sardinhas já assadas sobre as batatas que ficaram regadas com o molho que elas largavam. O avô chegava da loja onde fora encher  um pequeno  garrafão com vinho saído directamente do pipo e a almotolia com o azeite que tinha na pia de granito. Sentou-se num “mocho” num dos locais vagos ao lado da tripeça e iniciámos a refeição.
 Numa das mãos,  uma sardinha sobre um  pedaço de broa, na outra o garfo que procurava na mesma bacia, as batatas e os nabos que acompanhavam o conduto daquela ceia, faziam as minhas delícias. Assim, ninguém se apercebia se eu comia muito ou pouco. Mesmo assim,  muitas vezes lá ouvia a tia ou a avó: “ Não brinques menina, ainda não comeste nada de jeito. Quando os teus pais chegarem vão pensar que te deixámos passar fome.”

Obrigada pela sua visita. Volte sempre.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Memórias da Aldeia

A fazenda dos meus avós era das mais afastadas da aldeia.
Em tempo e rega, esperávamos que o Sol passasse pelo Penedo Branco para tapar a água ou deitá-la à ribeira, conforme as andadas , e só depois nos fazíamos ao caminho de regresso a casa.
A avó carregava num cesto de  alqueire, algumas batatas para a ceia e na mão levava a bilha do leite  para   fazer o queijo,  A tia carregava, à cabeça, a cesta cheia de roupa que a avó lavara na ribeira durante a tarde e na abada do avental algumas baijas que apanhara nos feijoeiros que subiam agarrados às canas do milho, Eu, no meu cesto de quarta, levava uma boneca feita  com trapos velhos e meia dúzia de cacos de pratos, que me serviam de loiça  quando brincava às casinhas. O avô seguira por outro caminho para botar a ceia ao gado, porque os currais ficavam do outro lado da ribeira e só mais tarde se iria juntar a nós.
O caminho era mau, longo, e íngreme mas, à medida que passávamos pelas fazendas de outros habitantes do Sobral, metíamos conversa e esperávamos por eles, aumentando os caminhantes no regresso a casa.
Era já de alpardo quando chegávamos à ponte da ribeira e iniciávamos a subida da  rampa que nos levava à povoação. O sino da capela tocava as “Avé Maria” e todos rezávamos:

O anjo do Senhor anunciou a Maria
E ela concebeu do Espírito Santo.
Avé Maria...

Eis aqui a escrava do Senhor
Faça-se em mim segundo a vossa palavra.
Avé Maria...

E o Verbo Divino encarnou
E habitou entre nós.
Avé Maria...
Já na povoação,  cada um seguia para sua casa, para outras actividade até que finalmente chegasse a hora de ir para a cama.
- Até depois, Marquitas.
- Fica-te com Deus.

 
Obrigada pela sua visita. Volte sempre.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

O Blog e as Minhas Memórias

Muitas vezes,  faço neste blog grandes viagens sem sair do local onde estou, não precisando nem de estradas nem de meios de transporte. Há dias em que sou atacada pela nostalgia e parto numa viagem  através das minhas memórias.
Hoje posso dizer que foi um dois em um. Tivemos que ir a Coimbra. A tia Leonilde fraturou o fémur e foi operada no Hospital Universitário. Sendo uma senhora solteira de 86 anos cuja família próxima são as sobrinhas, resolvi cumprir a minha obrigação e fui com o Fernando fazer-lhe uma visita e dar-lhe um pouco de conforto e coragem.
Saímos de Lisboa debaixo dum enorme temporal. A chuva que caía em grande intensidade obrigava a uma atenção redobrada e a uma velocidade controlada. Desta forma, a  viagem demorou um pouco mais. Íamos a meio do caminho e já falávamos no tempo que estávamos a demorar e do cansaço que sentíamos. E foi aí que começou a outra viagem. 
Vi-me com pouco mais de 6 anos, a caminho do Sobral Magro, dentro do primeiro carro do meu pai.
Apesar de adorar a aldeia, a viagem para mim era um tormento.  A estrada,  em mau estado em algumas partes do percurso, era uma sucessão de curvas  e contracurvas que pareciam não ter fim. O carro, comprado em segunda mão, antigo e completamente  carregado, de quando em vez arrastava no pavimento da estrada. Eu repartia o banco de trás, com vários sacos de mantimentos, que não havia à venda nas tabernas da aldeia  e  duas malas de roupa, sobre as quais ainda levávamos a gaiola dos canários.  Nessa altura, eu enjoava nas viagens de automóvel e, apertada entre as malas, balançava  para um lado ou para o outro conforme a curva,  ou saltava no assento  de cada vez que o carro passava sobre um buraco. Desesperada ainda  tentava segurar a gaiola onde os canários piavam e esvoaçavam aflitos. Era uma aventura que demorava sempre à volta de seis horas,  se não se desse o caso de termos um furo ou mesmo uma avaria, o que era raro. Nessas alturas, demorava muito mais.
E, bem lá no fundo das minhas memórias,  eu vejo-me  ansiosa e enjoada debaixo duma qualquer árvore na berma da estrada. Aguardo que o meu pai coloque um remendo, a tapar o furo na câmara de ar do pneu, para podermos prosseguir viagem até à terra ou até ao próximo furo. Era um ritual que tínhamos que cumprir em quase todas as viagens.
De regresso à realidade atual, dei graças a Deus pela acentuada melhoria que se verificou nas nossas estradas e pela construção da auto-estrada em que eu seguia e que, entretanto me fizera chegar a Coimbra sem qualquer anomalia, apesar do mau tempo.
 

Obrigada pela sua visita. Volte sempre.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Padre Aurélio e Padre Antonino



Foi em Novembro de 1960, que o "Notícias de Pomares" trouxe a notícia da partida para outra paróquia do  padre Aurélio de Campos,  fundador do referido jornal, que durante quatro anos, exercera a função de  Pároco da freguesia de Pomares.
Em Dezembro. a notícia referia-se à sua substituição pelo padre Antonino Barata dos Reis, na mensagem de saudação que se segue:


Conheci bem estes dois padres. Do padre Aurélio ficaram as lembranças de criança. Dele recordo o ar meigo e sorridente com que brindava as crianças. Todos os Domingos, perto da hora da Missa, eu ia com as outras crianças da aldeia esperar o Sr. Prior à entrada da povoação. Então, víamo-lo aparecer, montado numa mula, da qual saltava assim que nos avistava. Depois, distribuía "santinhos" por todas nós, que o seguíamos alegremente até à Capela.
Do segundo, tenho igualmente boas recordações. Mais crescida acompanhei mais de perto este padre quando estava na aldeia. Muitas vezes almoçava em minha casa pois era companheiro de caça de meu pai e era visita  na casa de Lisboa, sempre que se deslocava à capital.
Era igualmente muito amigo das crianças que presenteava também com os santinhos de que tanto gostávamos e guardávamos religiosamente. Era um padre bastante avançado para a época. A ele se deve a aquisição duma aparelhagem sonora, que durante anos abrilhantou as festas das aldeias da freguesia.

   (Imagem da net)

Obrigada pela sua visita. Volte sempre.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Viagens de Combóio


 
O dia amanheceu ensolarado o que me entusiasmou, pois tinha que ir a Lisboa. Como em muitas outras deslocações que faço à minha cidade não levei o automóvel, para evitar as filas de trânsito. Por isso, um sol agradável como o de hoje deu bastante jeito neste outono.
Desta vez, de entre as várias hipóteses que tenho para me deslocar para Lisboa, escolhi o combóio como meio de transporte.


Sentada numa moderna e confortável carruagem da Fertagus, olhando através da vidraça lembrei-me da das viagens de  combóio que  fazia em pequena, quando ia para a aldeia.   
E as recordações dum passado longínquo passaram pela minha cabeça. Então, como que num sonho, voltei a criança.
Já várias vezes referi que todos os anos eu passava a maior parte do Verão no Sobral Magro com os meus avós. Quando o meu pai não se podia ausentar da pastelaria, eu fazia a viagem  com o meu tio José Mendes, um tio muito querido de quem gostava muito mas que partiu muito cedo, deixando uma enorme saudade. Ele gostava de fazer a viagem  durante a noite, pois apanhávamos o combóio-correio  que seguia de Lisboa para o Porto,  na estação de Santa Apolónia, por volta da meia noite. Seguíamos na carruagem de Serpins,  a última do combóio que, em  Coimbra, era separada  e ligada a um outro  que seguia para a Lousã. Ali  apanhávamos  a camioneta para a Vide e saíamos em Avô, fazendo  o restante percurso  de táxi e a pé, chegando à aldeia de manhãzinha.
Lembro-me bem  duma das minhas primeiras viagens.
A carruagem era antiga e pouco confortável com bancos de madeira. O meu tio procurava que eu me sentasse junto à janela. Apesar do percurso ser feito durante a noite, ele achava que  ali eu me podia distrair mais. A carruagem enchia-se de pessoas e eu olhava para elas carregadas com malas, cestos e garrafões que arrumavam na prateleira sobre os bancos. Alguns homens traziam também violas, concertinas e outros instrumentos, o que me levava a pensar que iam para alguma festa, talvez como as que aconteciam na minha aldeia.
Após um sonoro apito, o combóio partia. Apesar de ser de noite, eu olhava lá para fora.  As luzes das povoações por onde passávamos sucediam-se e parecia que fugiam do combóio, alternando com o escuro da noite.
A viagem era longa e, ao fim dum tempo, algumas pessoas começavam a movimentar-se, ao mesmo tempo que um cheiro a comida inundava a carruagem. Puxavam dos cestos  e,  do seu interior, saiam garrafas e sacas de pano donde tiravam pão, nacos de presunto, chouriço, bacalhau frito e outros alimentos, que  comiam com  avidez intervalando com alguns golos de vinho que bebiam pela própria garrafa.
Eu observava-os completamente espantada e, enquanto a carruagem balançava, o combóio seguia o seu percurso e eu acabava por ser vencida  pelo sono.
Dormia pouco, porque depois de "bem comidos  e bem bebidos" havia sempre quem agarrasse nos instrumentos e iniciasse uma tocadeira, que acabaria por animar os passageiros durante o resto da viagem, tirando o sono aos mais sonolentos e cansados.
E era assim, entre comes e bebes, tocadeiras e cantorias  que chegávamos já de madrugada à estação da Lousã, onde abandonávamos o combóio para prosseguirmos a nossa viagem de camioneta.



A música que se ouvia hoje, no combóio onde eu seguia confortavelmente sentada  era outra, mas nos meus ouvidos ecoava ainda o som das concertinas e violas, que abrilhantavam as doces memórias da minha infância.

Fotos: Tiradas da Net


Obrigada pela sua visita. Volte sempre.