Que ideia a de que no Carnaval as pessoas se mascaram. No Carnaval desmascaram-se.
(Vergílio Ferreira)
O Carnaval na grande cidade nunca me agradou mas, a partir de certa altura, os meus pais começaram a ir passar os dias do carnaval à aldeia, onde esta época do ano era bem diferente, até no nome. Davam-lhe o nome de Entrudo.
E era aí, num meio pequeno, que eu me sentia livre pois éramos quase todos família e então já me davam permissão para andar pela rua com toda a gente. Juntava-me com os outros jóvens, vestíamos roupas velhas, colocávamos almofadas no peito e na barriga para parecermos mais gordos e púnhamos uma meia na cabeça, apenas com dois buracos no local dos olhos, para ninguém nos conhecer.
Ali, eu sentia-me feliz pois não havia princesas, nem fadas, nem ciganas, nem minhotas e nem sequer me lembrava mais da menina vestida de espanhola. Éramos todos igualmente feios, desajeitados, trapalhões, irreverentes e divertíamo-nos de igual modo e de forma espontânea.
Ali, eu sentia-me feliz pois não havia princesas, nem fadas, nem ciganas, nem minhotas e nem sequer me lembrava mais da menina vestida de espanhola. Éramos todos igualmente feios, desajeitados, trapalhões, irreverentes e divertíamo-nos de igual modo e de forma espontânea.
Percorríamos as ruas da povoação fazendo grande algazarra e abríamos as portas das habitações, pois na altura a chave estava sempre na fechadura, e tirávamos cacos lá para dentro tentando assustar os seus proprietários. No entanto, a maior parte das vezes, eles já estavam à espera dos entrudos e riam, batiam palmas e discutiam uns com os outros tentando descobrir quem eram os mascarados. Por vezes até ofereciam comida e bebida, que alguns aproveitavam. Enfarruscávamos quem apanhávamos desprevenido e assustávamos, com paus, aqueles com quem nos cruzávamos.
Na altura, tudo era pretexto para um bailarico e o entrudo não fugia à regra.
Nos grupos de foliões, havia sempre quem tocasse algum instrumento e, o dia acabava sempre num grande bailarico. Quando não havia quem tocasse, o baile não deixava de se realizar. Rapazes e raparigas dançavam modas de roda, ao som das belas e afinadas vozes que sempre existiram na terra.
Na minha aldeia, hoje quase deserta e envelhecida, já não se brinca ao Entrudo. Resta-nos apenas recordar e divulgar estas e outras tradições para que não caiam no esquecimento. É isso que tento fazer.



















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