Após a partida dos pais, começou a pensar a sua vida futura. Sempre vivera junto dos seus familiares, numa casa com todo o conforto. Naquele momento, completamente só, olhava para a casa que iria ser o seu lar durante os nove meses seguintes. Nessa altura, a adrenalina que a empurrara até ali desapareceu por completo. Sentou-se numa cadeira e, fixando o olhar na encosta que parecia prestes a desabar sobre a povoação , deixou as lágrimas rolarem livremente pelas faces, ficando ali inerte entregue aos seus pensamentos. Pensava ela que podia deslocar-se facilmente a Coimbra para aliviar as saudades e ir trazendo tudo aquilo que necessitava. Apenas trouxera a mala da roupa e algum material escolar.
Como se enganara! Por sorte na cozinha, a cantareira tinha alguma loiça que podia utilizar. Na arca havia roupas para a cama e para a mesa, tudo impecavelmente limpo.
Não sabe quanto tempo ali esteve. Despertou dos seus pensamentos, com um leve bater na porta. Levantou-se, passou os a mão pelos olhos já secos de lágrimas e, desconfiada, dirigiu-se à janela. No balcão da casa, várias senhoras aguardavam.
Desceu e abriu a porta.
Saudou-as e elas, humildemente vestidas mas de olhar meigo e envergonhado deram-lhe as boas vindas, ao mesmo tempo que lhe ofereciam o que traziam em cestos ou na abada do avental. Eram mães dos seus futuros alunos que lhe traziam produtos alimentares. Uma delas chegou mesmo a dizer-lhe que se quisesse deixava uma das filhas ir dormir com ela, para não se sentir sozinha. Surpresa e sem jeito, começou por recusar mas, perante a insistência delas, aceitou e lá foi agradecendo.
Partiram todas ficando apenas uma delas que lhe pediu os cântaros para lhe ir buscar água para casa. Cada vez mais desconcertada, olhou para ela, entregou um dos cântaros, ficou com o outro e propôs-se segui-la. A senhora bem insistia para ela não ir, mas ela teimou e acompanhou-a. Se tinha que se adaptar à vida da aldeia era o que ia fazer já de início.
Seguiu a senhora até ao local onde várias pessoas aguardavam a sua vez de encher o cântaro, numa pequena mina, situada na barroca. Na sua maioria eram raparigas e rapazes que conversavam e riam animadamente numa fila, ao longo dum estreito caminho. Ao repararem nela calaram-se de imediato.
A senhora que a acompanhava explicou quem ela era e logo, algumas raparigas mais extrovertidas vieram para junto dela, iniciando conversa e tentando saber algo sobre aquela desconhecida.
Mais tarde entendeu. O senhor que a acompanhara no caminho para a aldeia, era um dos comerciantes da terra e chegado ao estabelecimento, foi espalhando a notícia da chegada da nova professora. Era costume da serra receberem os forasteirso com o que de melhor tinham em casa e ficavam até ofendidos quando as pessoas não aceitavam as ofertas.
Foi assim durante todo o ano letivo. As primeiras novidades eram divididas com ela. No tempo da matança do porco a casa enchia-se de carne. Leite e queijo nunca faltaram. Sempre que alguém cozia, lá tinha broa e bola para vários dias. Por vezes sentia-se constrangida perante a pobreza de alguns, sem saber como lhes retribuir.
À tardinha, a mina era o ponto de encontro dos jóvens da aldeia. Era o único local onde havia água potável e todos os habitantes da povoação ali tinham que se deslocar normalmente depois de chegarem dos trabalhos do campo. Era uma tarefa morosa que era aproveitada para convívio que por vezes prolongavam para além das necessidades, originando um valente raspanete dos pais, à chegada a casa.
Foi ali o que se iniciou a sua ligação à aldeia e começaram algumas amizades que a marcaram para o resto da vida. Foi naquela aldeia isolada na serra do Açor, que aquela menina se transformou em mulher.
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