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terça-feira, 24 de junho de 2014

Mais uma vez, Fernando Pessoa


Noite de S. João


Noite de S. João para além do muro do meu quintal.
Do lado de cá, eu sem noite de S. João.
Porque há S. João onde o festejam.
Para mim há uma sombra de luz de fogueiras na noite,
Um ruído de gargalhadas, os baques dos saltos.
E um grito casual de quem não sabe que eu existo.

Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos"
Heterónimo de Fernando Pessoa







Obrigada pela sua visita. Volte sempre.





terça-feira, 3 de junho de 2014

Hoje a noite pede poesia: Saber Viver



heart photo: heart HeartofRoses.jpg
Saber Viver


Não sei... Se a vida é curta
Ou longa demais pra nós,
Mas sei que nada do que vivemos
Tem sentido, se não tocamos o coração das pessoas.
Muitas vezes basta ser:
Colo que acolhe,
Braço que envolve,
Palavra que conforta,
Silêncio que respeita,
Alegria que contagia,
Lágrima que corre,
Olhar que acaricia,
Desejo que sacia,
Amor que promove.
E isso não é coisa de outro mundo,
É o que dá sentido á vida.
É o que faz com que ela
Não seja nem curta,
Nem longa demais,
Mas que seja intensa ,
Verdadeira, pura... Enquanto durar"
  Cora Coralina
 
Foto:Photobucket 
 
Obrigada pela sua visita. Volte sempre.

segunda-feira, 5 de maio de 2014

O Cacilheiro

Após umas férias na aldeia e, de regresso a casa, aqui deixo um poema de Ary dos Santos, acerca dum dos símbolos da região onde habito.

O  CACILHEIRO 


Lá vai no mar da Palha o cacilheiro,
Comboio de Lisboa sobre a água;
Cacilhas e Seixal, Montijo mais Barreiro,
Pouco Tejo, pouco Tejo e muita mágoa.

Na ponte passam carros e turistas
Iguais a todos os que há no mundo inteiro,
Mas, embora mais caras, a ponte não tem vistas
Como as dos peitoris do cacilheiro.

Leva namorados, marujos,
Soldados e trabalhadores,
E parte de um cais
Que cheira a jornais,
Morangos e flores.
Regressa contente,
Levou muita gente
E nunca se cansa.
Parece um barquinho
Lançado no Tejo
Por uma criança.

Num carreirinho aberto pela espuma,
Lá vai o cacilheiro Tejo à solta,
E as ruas de Lisboa, sem ter pressa nenhuma,
Tiraram um bilhete de ida e volta.

Alfama, Madragoa, Bairro Alto,
Tu-cá tu-lá num barco de brincar,
Metade de Lisboa à espera do asfalto,
E já meia saudade a navegar.

Leva namorados, marujos,
Soldados e trabalhadores,
E parte de um cais
Que cheira a jornais,
Morangos e flores,
Regressa contente,
Levou muita gente
E nunca se cansa,
Parece um barquinho
Lançado no Tejo
Por uma criança.

Se um dia o cacilheiro for embora,
Fica mais triste o coração da água,
E o povo de Lisboa dirá, como quem chora,
Pouco Tejo, pouco Tejo e muita mágoa.

Ary dos Santos 


 photo P9140052.jpg



Obrigada pela sua visita. Volte sempre.

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Primavera

Glória


Depois do Inverno, morte figurada,
A Primavera, uma assunção de flores.
A vida
Renascida
E celebrada
Num festival de pétalas e cores.


 Miguel Torga




Obrigada pela sua visita. Volte sempre.

quarta-feira, 5 de março de 2014

Poetas da Minha Serra: José Loureiro


Muitos homens e mulheres da serra do Açor trabalharam nas minas da Panasqueira. Deixavam as suas aldeias  ao início da semana, percorriam muitos quilómetros a pé, subindo e descendo perigosos caminhos, repetindo o percurso em sentido inverso, ao final duma semana de duro trabalho.
Um amigo blogueiro homenageou esses homens no seguinte poema:  

O Fado e o Mineiro

Meu amigo, bom Mineiro,
'inda ninguém te cantou,
deixa que seja o primeiro,
que por fado te exaltou.

Ser Mineiro é o teu fado,
teu destino, tua sina,
e um qual moiro encantado,
preso ao encanto da mina.

Ser Mineiro é expoente,
e a mais bela toupeira,
o emblema mais patente,
de toda a terra mineira.

Porque de Mineiro, filho,
também vivo esse teu fado,
fado também um cadilho,
que a ti me prende abraçado.

Meu amigo, bom Mineiro,
porque vivo esse teu fado,
me orgulho ser o primeiro,
por fado te ter cantado

José Loureiro


Obrigada pela sua visita. Volte sempre.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Anunciação de Miguel Torga

Por uns chamado de rio por outros de ribeira, o certo é que o Alvoco é digno duma bela poesia.

Anunciação

Surdo murmúrio do rio,
a deslizar, pausado, na planura.
Mensageiro moroso
dum recado comprido,
di-lo sem pressa ao alarmado ouvido
dos salgueirais:
a neve derreteu
nos píncaros da serra;
o gado berra
dentro dos currais,
a lembrar aos zagais
o fim do cativeiro;
anda no ar um perfumado cheiro
a terra revolvida;
o vento emudeceu;
o sol desceu;
a primavera vai chegar, florida.


Miguel Torga



Obrigada pela sua visita. Volte sempre.




quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Chove - A Inspiração de Fernando Pessoa

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Chove. Há silêncio, porque a mesma chuva
Não faz ruído senão com sossego.
Chove. O céu dorme. Quando a alma é viúva
Do que não sabe, o sentimento é cego.
Chove. Meu ser (quem sou) renego...
Tão calma é a chuva que se solta no ar
(Nem parece de nuvens) que parece
Que não é chuva, mas um sussurrar
Que de si mesmo, ao sussurrar, se esquece.
Chove. Nada apetece...
Não paira vento, não há céu que eu sinta.
Chove longínqua e indistintamente,
Como uma coisa certa que nos minta,
Como um grande desejo que nos mente.
Chove. Nada em mim sente...

Fernando Pessoa
Obrigada pela sua visita. Volte sempre.


quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Manhã de Inverno


Manhã de Inverno

Coroada de névoas, surge a aurora
Por detrás das montanhas do oriente;
Vê-se um resto de sono e de preguiça,
Nos olhos da fantástica indolente.

Névoas enchem de um lado e de outro os morros
Tristes como sinceras sepulturas,
Essas que têm por simples ornamento
Puras capelas, lágrimas mais puras.

A custo rompe o sol; a custo invade
O espaço todo branco; e a luz brilhante
Fulge através do espesso nevoeiro,
Como através de um véu fulge o diamante.

Vento frio, mas brando, agita as folhas
Das laranjeiras húmidas da chuva;
Erma de flores, curva a planta o colo,
E o chão recebe o pranto da viúva.

Gelo não cobre o dorso das montanhas,
Nem enche as folhas trêmulas a neve;
Galhardo moço, o inverno deste clima
Na verde palma a sua história escreve.

Pouco a pouco, dissipam-se no espaço
As névoas da manhã; já pelos montes
Vão subindo as que encheram todo o vale;
Já se vão descobrindo os horizontes.

Sobe de todo o pano; eis aparece
Da natureza o esplêndido cenário;
Tudo ali preparou co’os sábios olhos
A suprema ciência do empresário.

Canta a orquestra dos pássaros no mato
A sinfonia alpestre, — a voz serena
Acordo os ecos tímidos do vale;
E a divina comédia invade a cena.

Machado de Assis

Sobral Gordo photo SG1317.jpg



Obrigada pela sua visita. Volte sempre.




terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Para esta noite...

Para esta noite, a poesia de Antero de Quental.

Noite, vão para ti meus pensamentos

Porto Silvado (Noturno) photo P7200548.jpg

Noite, vão para ti meus pensamentos,
Quando olho e vejo, à luz cruel do dia,
Tanto estéril lutar, tanta agonia,
E inúteis tantos ásperos tormentos...

Tu, ao menos, abafas os lamentos,
Que se exalam da trágica enxovia...
O eterno Mal, que ruge e desvaria,
Em ti descansa e esquece alguns momentos...

Oh! Antes tu também adormecesses
Por uma vez, e eterna, inalterável,
Caindo sobre o Mundo, te esquecesses,

E ele, o Mundo, sem mais lutar nem ver,
Dormisse no teu seio inviolável,
Noite sem termo, noite do Não-ser!
 
Antero de Quental
 
 
 
 
Obrigada pela sua visita. Volte sempre.



 

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

" De Tudo Ficaram Três Coisas "

" De Tudo Ficaram Três Coisas " 
 

De tudo ficaram três coisas:
A certeza de que estamos começando,
A certeza de que é preciso continuar e
A certeza de que podemos ser interrompidos antes de terminar
Fazer da interrupção um caminho novo,
Fazer da queda um passo de dança,
Do medo uma escola,
Do sonho uma ponte,
Da procura um encontro,
E assim terá valido a pena existir!


FERNANDO SABINO
 in "Encontro Marcado"


Obrigada pela sua visita. Volte sempre.





 

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Poetas da Serra: A poesia de João António Silva

 

Arganil
 
Concelho de altas serras
De aldeias mortas, perdidas nelas.
De gente forte, em pequenas terras
De casas velhas, estreitas vielas!
...
Terras de sonho mas quão madrastas?
Dá-me tristeza tanto abandono.
De portas fechadas, soleiras gastas
Passam por elas, lembranças do dono!

Ressoam no silêncio das suas calçadas
Os passos de quem por lá se afoite
São sons vazios, gritos de alma.
No silêncio dos dias, lembrados à noite!

É assim a minha terra!
Hoje tão fraca de forte gente.
Moribunda, a minha serra...
Ainda viva, a morte pressente!

 JSilva
  

Porto Silvado photo PSTerraNova.jpg


Obrigada pela sua visita. Volte sempre.

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Tempo de Poesia: Festa na Aldeia

Festa de 2013: Prociss photo P8070070.jpg
 

FESTA NA ALDEIA

Voltei ao ponto de partida
Solto a palavra precipitada
E é mais um dia de Vida
De alegrias salpicada.
Há fogo de artifício no ar
A jorrar!
Que ninguém pode calar.

Há festa na aldeia
E uma embriaguês que me faz girar
Está de alegria tão cheia
A aldeia...
Que ri o luar!

O luar de Agosto que tudo alumia
Fazendo pirraça!
Ao sol que alumia o dia.
Já no horizonte sem graça.

Solto palavras de ousadia
Porque hoje é dia de festa
E é tão grande a alegria
Que até o sino a voz empresta.

E como tal, começa a festa
Com foguetes e cantares
Passam rapazes e raparigas aos pares
E a minha saudade se manifesta.
E me atormenta
Apesar dos meus protestos inventa
Que há-de ir à festa e voltar
E eu tento sorrir
mas tenho vontade de chorar.
Lembro as festas de outrora,
A rainha da festa, a quermesse
E me dá saudade na hora.
A juventude não se esquece.


rosafogo


Under Creative Commons License: Attribution Non-Commercial No Derivatives
 
 
 

Obrigada pela sua visita. Volte sempre.





 
 

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Acordar de Álvaro de Campos


Lisboa - Candeeiro photo P9290136-1.jpg

 

Acordar da cidade de Lisboa, mais tarde do que as outras,
Acordar da rua do Ouro
Acordar do Rossio, às portas dos cafés,
Acordar
E no meio de tudo a gare, a gare que nunca dorme
Como um coração que tem que pulsar através da vigília e do sono.
Toda a manhã que raia, raia sempre no mesmo lugar,
Não há manhãs sobre cidades, ou manhãs sobre o campo
À hora em que o dia raia, em que a luz estremece a erguer-se
Todos os lugares são o mesmo lugar, todas as terras são a mesma,
E é eterna e de todos os lugares a frescura que sobe por tudo
E (...)
Uma espiritualidade feita com a nossa própria carne.
Um alívio de viver de que o nosso corpo partilha,
Um entusiasmo por o dia que vai vir, uma alegria por o que pode
acontecer de bom,
São os sentimentos que nascem de estar olhando para a madrugada,
Seja ela a leve senhora dos cumes dos montes,
Seja ela a invasora lenta das ruas das cidades que vão leste-oeste,
Seja (...)
A mulher que chora baixinho
Entre o ruído da multidão em vivas...
O vendedor de ruas, que tem um pregão esquisito,
Cheio de individualidade para quem repara...
O arcanjo isolado, escultura numa catedral,
Syringe fugindo aos braços estendidos de Pã,
Tudo isto tende para o mesmo centro,
Busca encontrar-se e fundir-se
Na minha alma.
Eu adoro todas as coisas
E o meu coração é um albergue aberto toda a noite.
Tenho pela vida um interesse ávido
Que busca compreendê-la sentindo-a muito.
Amo tudo, animo tudo, empresto humanidade a tudo,
Aos homens e às pedras, às almas e às máquinas.
Para aumentar com isso a minha personalidade.
Pertenço a tudo para pertencer cada vez mais a mim próprio
E a minha ambição era trazer o universo ao colo
Como uma criança a quem a ama beija.
Eu amo todas as coisas, umas mais do que as outras —
Não nenhuma mais do que outra, mas sempre mais as que estou vendo
Do que as que vi ou verei.
Nada para mim é tão belo como o movimento e as sensações.
A vida é uma grande feira e tudo são barracas e saltimbancos.
Penso nisto, enterneço-me mas não sossego nunca.
Dá-me lírios, lírios
E rosas também.

 

Álvaro de Campos (Fernando Pessoa)

Livro de Versos





 

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