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terça-feira, 21 de outubro de 2014

Recordações da aldeia.

Sentada na soleira da porta da minha avó, olho a casa ao cimo da rua, completamente deserta há alguns anos.
Aquela era a casa onde funcionava uma das tabernas da aldeia e por onde passavam todas as pessoas da aldeia, quase diariamente.
Bem lá do fundo das minhas memórias saem,  em desfile, pessoas que fizeram parte da minha vida,  cujas lembranças guardo num cantinho do meu coração.
Lá vem o ti Custódio. Recordo-o com a sua figura bonacheirona e simpática  de sorriso rasgado no rosto, umas vezes, atrás do balcão pesando mercearias, ou vendendo copos de vinho e aguardente aos seus clientes, outras sentado à mesa a jogar às cartas com os amigos, intervalando para servir uma rodada paga pelos que perdiam. Parece que ainda consigo ouvir o som dos seus fortes punhos batendo na mesa de jogo, fazendo sinal ao seu parceiro, ou as sonoras gargalhadas que soltava quando contava alguma graça.
Por vezes, sentava-se na soleira da  porta dos machos,  conversando com quem passava, contando as suas aventuras nas longas viagens que fazia pelas serras, a caminho de alguma feira ou comprando e vendendo pinhais.
Recordo ainda, ao fim das tardes, vê-lo passar, com os machos à rédea, a caminho da fonte onde levava os animais para lhes saciar a sede.
Era o regedor da aldeia, sendo uma pessoa amada e respeitada por todos.
Atrás vem a mulher, a tia “Maria da Taberna”, prima da minha mãe,  uma pessoa simples, simpática e um doce de senhora, sempre conformada, mesmo até com as agruras que a vida lhe atravessou no caminho. Era uma mulher de trabalho. Para além da fazenda que cultivava, cuidava da casa e sempre que o marido jogava com os amigos ou estava fora em negócios, atendia também os clientes do estabelecimento, sempre com um sorriso para todos.
Finalmente, chega a Isilda, uma grande amiga que nos deixou bem cedo.  Era uma menina meiga  e doce como a mãe, mas  esperta e com jeito para o negócio como o pai.
Raramente a vi a brincar com as outras meninas pois, assim que saiu da escola, começou a ajudar os pais na taberna. Teve que crescer muito cedo. Mesmo em dias de festa, raramente vinha ao Largo da povoação, pois eram os dias em que mais se trabalhava na taberna e, todos os braços eram pouco para servir os clientes habituais e forasteiros.  Mais tarde, foi ela quem ficou com o telefone público a seu cargo.
Muito gostava eu de a ver a atender o telefone:
“Está lá? Fala do 121 de Pomares. Faço já a ligação ao Sobral Gordo, um momentinho só.” Cheia de destreza, ligava uma cavilha, dava à manivela e voltava a falar: “ É do Sobral Gordo? Como está senhora Rita? Atenda uma interurbana de Lisboa”. E ligava nova cavilha.
Na aldeia não havia mais telefones e, quando telefonavam para alguém da terra, era ela que tinha que ir dar os recados aos destinatários,  estivesse sol ou chuva.
Como estava  presa o dia inteiro ,  era com ela que eu passava muito do tempo quando, em adolescente , passava as férias de Verão na aldeia. Éramos amigas e confidentes.
Após o casamento, cada uma seguiu destinos diferentes e raramente as nossas férias coincidiam. No entanto, quando nos encontrávamos, era o reviver de memórias e a partilha dos acontecimentos das nossas vidas, tal como acontecera no passado. Apesar de distantes, a amizade manteve-se.
Deus levou-a muito cedo mas, estou certa que um dia, nos voltaremos a encontrar e a nossa amizade continuará.

 


Obrigada pela sua visita. Volte sempre.

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Encontrei-me com o Passado


Olhando aquele retrato mal consigo conter  a emoção. Dói a alma ao ver aqueles campos desertos. São caminhos que percorri que não são mais os mesmos. Hoje estão quase impenetráveis e  a desertificação é cada vez mais visível. Encontrei-me com o passado e a  nostalgia ataca-me forte. A saudade dói e, por momentos, aquele local parece ganhar vida.
Vejo-me  a rabujar pelas topadas nas penedas e pelas ervas da beira do caminho que me mordem as pernas, na descida a caminho do pontão da ribeira, Do outro lado da ribeira  aguarda-me uma penosa subida, numas escaleiras rasgadas numa fraga  de xisto. Atrás de mim, a tia Leonilde incentiva-me carinhosamente. Avisto já o Coberto e o ti Gaspar sentado à porta da palheira, com uma malga de café sobre os joelhos e um naco de broa na mão. Damos-lhe a salvação e continuamos o nosso percurso. Uns longos metros após a subida,  já avisto a tia Delfina junto à palheira e o  ti Zé Miguel com o seu rebanho.

A visão das pessoas dá-me mais alento e prossigo,  saltando sobre os montes de borralho, levantando uma nuvem de pó à minha volta. Lá está a tia Assunção com os filhos, no meio do milho aproveitando as poucas horas de rega.  A minha tia já vai a chegar e, daí a nada, corta-lhe  a água.

Na Feiteira, do outro lado da ribeira, lá está o ti Cristiano a pôr o mato no curral das cabras, enquanto a Marquitas, a Isabel e a Natividade brincam com os chibitos.

Já avisto o Cabeço e oiço a tia Silvina a falar. Rapidamente, desço o caminho para a palheira,  seguindo o cheirinho a café que a minha avó está a fazer. A tia Silvina chama-me. Quer saber notícias dos meus pais  e dá-me notícias do Sobral Gordo. Entro na palheira, onde  o meu avô já está com o leitinho acabado de ordenhar, para juntar ao meu café.

Sinto-lhe o cheiro, mas o retrato continua ali, sem vida a mostrar-me a verdade nua e crua e, uma lágrima teimosa encontra caminho e escapa pelo meu rosto abaixo.



Obrigada pela sua visita. Volte sempre.




terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Tempo de Natal

Aproxima-se o Natal, época em que, normalmente,  a melancolia toma conta de mim. As emoções estão à flor da pele, os sentimentos  contraditórios tiram-me as palavras e a disposição para postar  não é nenhuma .
Porém, hoje, num daqueles ataques de “tenho que arrebitar”, andei às voltas pela net em busca de inspiração para a quadra natalícia. Eis senão quando, dou por mim a divagar e vêm-me à lembrança outras épocas de hábitos distintos dos atuais em que não existiam as novas tecnologias.

Lembrei-me dos postais de Natal que, nesta altura, enviávamos aos familiares e amigos e dos agradecimentos que muitas vezes chegavam já fora de época, porque o volume de correspondência aumentava muito nesta época do ano e os funcionários dos CTT não conseguiam dar vazão.
Hoje em dia, já quase não se usam os postais. A internet tomou conta das nossas vidas e, por todo o lado surgem mensagens mais ou menos sugestivas, mais ou menos apelativas e, só temos que escolher de entre toda a panóplia que temos à nossa disposição, aquela que mais nos agradar e com um simples clic, encaminhá-la para os nossos contactos que a receberão na hora, sem corrermos o risco de as mensagens chegarem atrasadas.
 E as transmissões televisivas que, por terem um horário muito restrito, eram aguardadas com grande ansiedade. Eu perdia-me pelos  programas infantis, pelo Circo e pelos filmes da Lassie.
Longe vão os tempos em que o país quase parava para ver o Natal dos Hospitais e  as mensagens de Natal dos nossos soldados que se encontravam em zonas de guerra nas ex-colónias portuguesas.
Hoje, a televisão funciona 24 h por dia, com vários canais. Alguns programas ainda continuam a ser transmitidos mas,  já se tornaram tão banais, que poucos são aqueles que  a eles ainda assistem.
Lembro-me de pôr o meu sapatinho na chaminé e na alegria que sentia por, no dia seguinte, lá ter um simples balão, uma saia  e aquela camisola, igualzinha à que eu vira a minha mãe  tricotar, para oferecer a  uma outra menina. Inocente,  pensava que o Menino Jesus  percebera que eu tinha pena de a minha mãe não fazer uma camisola igual para mim. E, ficava feliz.
Hoje, as crianças recebem toda a espécie de brinquedos, alguns deles muito caros. Na noite de Natal é uma grande alegria mas, passados dias, já nem se lembram deles pois já estão a pedir outros, que viram aos seus amigos.
Recordo-me bem da minha pequena árvore de Natal onde, por entre algumas bolinhas,  apareciam uns chocolatinhos em forma de Pai Natal, que nunca chegavam à noite da Consoada.
Hoje a minha árvore é grande,  enfeitada com vários motivos de Natal mas, já não está cá aquela criança que um dia eu fui.

Natal 2012  


 

Obrigada pela sua visita. Volte sempre.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Por detrás da vidraça...


Acordei num daqueles dias meios encobertos e frios em que a preguiça, tomou conta de mim. Fiquei junto à janela, no silêncio de casa, espreitando pelas vidraças. Deixei os meus pensamentos partir em busca das minhas mais doces recordações. Logo a saudade me veio fazer companhia. Sim, porque nestas alturas, a saudade é sempre  boa companheira duma alma nostálgica, sonhadora e sensível.
Percorro os caminhos do meu passado e vejo-me na minha infância.
Não tinha computadores, nem televisão, nem brinquedos ou jogos. Tudo tinha que ser inventado. Na Ribeira Mourísia, na fazenda dos meus avós, não tinha outras crianças com quem brincar e tudo era muito tranquilo. Vestia-me com as roupas da minha tia e imitava-lhe os movimentos para parecer  adulta. As penedas mais lisas serviam de  casa de bonecas. Uma boneca de trapos feita pela minha avó era a minha única companhia.  Amassava terra com água para fazer bolinhos e qualquer pedrinha circular servia de prato, sendo os móveis umas pedras maiores  com formatos diversos. Era tudo de “faz de conta”.
Mais tarde, após regressar das suas fazendas, a garotada juntava-se no largo da povoação e a tranquilidade que reinara na aldeia, durante a maior parte do dia, desaparecia como por encanto, dando lugar  a gritos e risadas estridentes,   que ecoavam alegremente pelas ruas e barrocas.
Então, as imagens começaram a desfilar na minha lembrança e pararam no Largo da Barroca no Sobral Magro. Lá apareceram todos os meus amigos de criança. Jogávamos "à  penamalha",  "à rolha",  ou "às escondidas".  Aproveitávamos  o lavadouro vazio, uma em cada canto e consegui ouvir a voz da  Hortensita gritar: " dá-me lume". Respondeu logo a saudosa Isabel: " vai àquela casa que te fume". E nós corríamos e gritávamos tentando trocar de canto, umas com as outras, sem sermos apanhadas. Eram as brincadeiras duma época em que não havia dinheiro para brinquedos mas, em que convívíamos e divertíamo-nos  muito com pequenas coisas. E, não éramos menos felizes...

 
Lá estava o "Coneca" encostado à parede duma casa, rindo e comentando as nossas brincadeiras com o seu modo de articular as palavras, para muitos impercetível. "Fó Mialu, fó. Aquê malano panha ti" (Foge Maria de Lurdes, foge. Aquele malandro apanha-te).
Tudo parecia tão real que, por momentos, me  pareceu ouvir o som da minha própria voz chamando: “Avó, avó!”.
Senti então uns bracitos que me envolveram carinhosamente e percebi que era a voz da Leonor que me chamava “Avó, avó! Que estás a fazer aí a olhar para a rua? Anda brincar comigo!”
 
Foto: Net

Obrigada pela sua visita. Volte sempre.
 


 

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Recordando: As vindimas

Percorro os caminhos da minha memória. Sinto o sabor a vinho doce e o cheiro a mosto na adega do meu avô. Ele, de calças arregaçadas, pisa  uvas numa celha, enquanto o  tio lava os pés num pequeno alguidar de zinco. Na dorna  os cachos esperam por ele  para serem pisados.
Eu e a tia chegamos  da Ribeira Mourísia, carregadas com  uvas. Ela poisa a cesta em cima da salgadeira e ajuda-me a poisar a minha balaia em cima da pia do azeite. Tiro a saca que me protegeu a cabeça e penduro-a. Olhando para mim, a avó acena a cabeça com ar de reprovação, enquanto me diz: " Ai se os teus pais te vissem agora..."
Estava num estado lastimoso. O sumo das uvas mais maduras escorrera pelo meu corpo, desenhando riscos arroxeados nos meus braços; as pernas ardiam devido às urtigas que cresciam à beira do caminho; os dedos dos pés doíam de tantas topadas que dera. No entanto, nada disso me incomodava nem minorava a felicidade que sentia  por ter conseguido vencer o  duro e longo caminho, que separa a fazenda da casa dos meus avós.
Aos poucos as imagens esbatem-se na minha lembrança. Na boca  o sabor a vinho doce dá o lugar ao sabor  salgado das lágrimas da minha saudade.






Obrigada pela sua visita. Volte sempre.


segunda-feira, 5 de março de 2012

A Hora do Correio

As dez horas já tinham batido há algum tempo no relógio da torre da capela. O Largo da Barroca, aos  poucos,  ganhou movimento. De todas as ruas e escaleiras apareciam   habitantes da aldeia que se vinham juntar à porta da loja do tio Pereira.
Na  varanda de sua casa, a tia Maria  observava as pessoas que  chegavam e tentava perceber as conversas que se iam iniciando. 
A criançada brincava na fonte,  e o bebedouro dos machos  era agora o palco das suas brincadeiras uma vez que  estava vazio, porque no Verão a água escasseava.
A dada altura, os miúdos desataram a correr fazendo uma grande algazarra e juntaram-se às mães.  Os olhos de todos viraram-se para uma das esquinas onde  apareceu a tia Urbana do Piódão, transportando o saco do Correio.
A tia  Maria desceu e juntou-se a todos quanto que se encontravam no Largo e seguiram a tia Urbana para dentro da loja.
Todos se calaram expectantes. O tio Pereira, de óculos na ponta do nariz, tirou as cartas do saco e   começou a ler cada  endereço em voz alta.
Quando ouviu o seu nome, a tia Maria esboçou um sorriso,  agarrou na carta e saiu apressada.
Era a mais velha das irmãs, cedo começou a ajudar os pais no campo e na educação dos irmãos e  nunca aprendera a ler. Dirigiu-se então a  casa da irmã mais nova para que ela lhe pudesse ler as notícias do seu homem, que se encontrava a trabalhar em Lisboa.
Esta era a altura  do dia em que se  sabiam as novidades de longe e, desta vez, a tia Maria também fora contemplada. Entusiasmada com as notícias, pediu à irmã que lhe   escrevesse a carta de  resposta. E lá ficaram as duas. Uma escrevia o que a outra lhe ditava.
" Espero que te encontres com saúde que eu e os meninos estamos bem graças a Deus... "
Terminada a escrita, a tia Maria voltou à loja do tio Pereira, comprou o selo que colou no envelope para, à tardinha, quando a tia Urbana regressasse com a correspondência  do Piódão, a sua carta seguisse na volta do Correio.


Obrigada pela sua visita. Volte sempre.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Memórias

Essa noite mal dormira e levantara-se bem cedo. Ansiosa saíra de casa rumo à escola onde iria iniciar a sua vida profissional.
Logo à saída de casa, os futuros alunos aguardavam-na e saudaram-na entusiasmados. Retribuiu a saudação com um sorriso nervoso, tentando manter  as aparêncas.
Seguiu com elas pelo caminho que conhecia há muitos anos. As palavras não lhe saíam com a fluidez costumeira, as  pernas fraquejavam e uma forte pressão no peito fizera com que perdesse algum do entusiasmo que sentira nos dias anteriores.  Alguns pais das crianças, que afinal eram seus amigos, foram-se juntando e  a sua conversa animada não a fez  esquecer a ansiedade e receio que sentia no momento. 
Mas, por que razão resolvera concorrer para a Escola da  aldeia natal da sua mãe? Todos a conheciam, crescera no meio deles e iria ter alguma dificuldade em manter o respeito.
As crianças alheias ao seu nervosismo, percorriam o caminho  correndo, saltando e soltando sonoras gargalhadas, olhando para ela de quando em vez. 
Junto ao portão da escola, adiantaram-se e juntaram-se aos que já lá se encontravam.
- Bom dia minha Senhora! - gritaram todos em uníssono, à sua chegada.
Ela muito a custo conteve uma gargalhada. Afinal, aqueles que iriam ser seus alunos eram seus conterrâneos, sempre a trataram por tu e, naquele momento, o "minha senhora" saído das bocas deles, não soara nada bem.
Ergueu a cabeça e viu em frente, a aldeia natal do pai. Dum lado, a terra da mãe, do outro a do pai seguiam os seus primeiros passos na  vida profissional. 
Curioso. Há muitos anos atrás, os seus pais deixaram a serra para se empregar em Lisboa e, agora, ela deixara Lisboa para se vir empregar na serra.
Desta vez, um sorriso aberto aflorou nos seus lábios e abriu a porta da Escola confiante, iniciando assim um novo ciclo de vida.


Obrigada pela sua visita. Volte sempre.

terça-feira, 29 de março de 2011

Encontros e Desencontros



Como tenho vindo a referir, no passado Sábado estive presente no Baile da Pinha organizado pelo grupo de Danças e Cantares de Soito da Ruiva. Deste grupo faz parte uma das minhas amigas de infância e, sempre que nos encontramos,  é inevitável uma viagem ao passado.
Conhecemo-nos, no Sobral Gordo, aldeia natal do meu pai e da mãe dela. Eu era ainda muito novinha e ela ainda mais. Apesar de passar as férias com os meus avós maternos no Sobral Magro, passava pouco tempo no Sobral Gordo porque a minha avó paterna faleceu muito nova. Embora fossem frequentes as  visitas aos meus tios, de quem fomos sempre muito próximos, não ficava na aldeia mais que um dia. Por essa razão, não tinha lá amiguinhas da minha idade, pois todas elas tinham os seus grupos já organizados. Nessas alturas, brincava   com uma menina bem mais novinha.  Como era uma criança amorosa, muito meiga e brincalhona eu adorava brincar com ela de tal forma que nunca a esqueci.  Crescemos e desencontrámo-nos. Entre encontros e desencontros deixámos de nos ver.
Entretanto o meu avô casou pela segunda vez e fixou-se na aldeia. Desafiada por ele, recomecei a participar nas festas do Sobral Gordo.
Quando cheguei, tinha eu os meus 16 anos,  não conhecia quase ninguém da minha idade. Tínhamos todos crescido e,  em plena adolescência, as modificações foram muitas. Tentei integrar-me no grupo de  jovens da terra e, à medida que nos íamos identificando, reconheci a Adelina.
A partir de então, retomámos a amizade e  encontrávamo-nos sempre nas férias de Verão. No meu primeiro ano de serviço, fui colocada na escola do Sobral Magro. Então a amizade tornou-se mais próxima pois era raro o Domingo que ela não vinha ter comigo.  Divertíamo-nos muito,  fazíamos passeios e, quando eu vinha passar os fins de semana a Lisboa, ela aproveitava para  visitar a família que tinha na Cova da Piedade. Eram viagens inesquecíveis. Tão inesquacíveis, que sempre que nos encontramos recordamos uma delas, em que chegámos a Coimbra e havia  uma grande feira.  Jóvens como éramos, começámos a pensar que nos podíamos divertir  um  pouco e, em vez de continuarmos a nossa viagem, fomos para a feira andar nos carrocéis. Chegámos  a casa já tarde com  a família já em alvoroço.

Photobucket
 
Novamente, a vida nos separou. Ambas percorremos caminhos distintos mas há alguns anos, fui encontrá-la ligada ao Grupo de Danças e Cantares do Soito da Ruiva.
Temo-nos agora encontrado  regularmente. São inevitáveis as lembranças que nos vêm à memória e acabamos sempre por passar momentos divertidos, recordando os doces momentos da nossa juventude. Como ela diz "estamos mais velhas, mas a nossa maneira de ser é  a mesma."





Obrigada pela sua visita. Volte sempre.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Bolo de Folha

Mesmo ao fim de muitos anos, há sabores que ficam de tal maneira entranhados em nós que não conseguimos esquecer nunca. Isto vem a propósito de ao fim de semana eu comprar sempre broa de milho.
Não que eu goste, mas a minha nora adora este tipo de pão.
Penso que já aqui confessei  que não sou apreciadora de pão de milho e, em pequena, o único senão das férias na aldeia era ter que comer broa. Diariamente, a minha avó tentava tudo para que eu a comesse.   Ela desfazia-a no leite ou no café, migava-a na sopa, mas em vão. Não me consegui  adaptar ao seu sabor.
No entanto, era costume da minha avó, aproveitar um pouco de massa da broa e envolver com ela uma sardinha, fazendo uma espécie de broa recheada mais pequena. Enrolava-a numa folha de couve e levava-a ao forno quando fazia o pão. Chamava-lhe ela, um bolo de folha. Bolo não era porque não era doce e a massa era a mesma da broa. O que eu sei é que o sabor era delicioso e, para mim, um manjar . Talvez  fosse devido à gordura  que escorria da sardinha, ou aos sucos que se desprendiam da folha de couve... Mas, o que eu penso,  é que era devido ao carinho com que ela tentava agradar-me que fez com que ainda hoje eu me recorde dos bolos de folha.
Ainda hoje raramente como broa, mas se for com sardinha lá me vem a lembrança dos bolos de folha da minha avó.

Obrigada pela sua visita. Volte sempre.

domingo, 9 de janeiro de 2011

Jogos e Brinquedos

Hoje o dia esteve novamente invernoso e triste. O vento  e fortes bátegas de chuva convidavam à permanência em casa. E, foi isso que aconteceu. A Leonor e a mãe vieram almoçar e, enquanto o almoço se fazia, estiveram a montar a casa da Barbie. De vez em quando compro-lhe uns móveis e outras pecinhas e elas adoram colocar tudo nos respectivos locais. Passam imenso tempo a brincar as duas numa cumplicidade que dá gosto.




Após o almoço, regressaram a sua casa e aqui fiquei na  companhia das minhas recordações. Como que por magia, vi-me no Sobral Magro em casa da  minha avó, ali bem junto ao Largo da Barroca.
O Largo da Barroca era o local  onde a garotada se juntava para  fazerem as suas brincadeiras e diabruras. 
E lá estavam eles. Pareceu-me ouvir uma grande algazara de meninas que se tentavam esconder enquanto a voz da Hortensita  contava:" Um, dois, três, quatro, ... cem. Arronda arronda quem quiser que se esconda."
E lá ia ela, muito pequenina mas cheia de genica, de esquina em esquina, na tentativa de descobrir as outras , que muitas vezes não conseguiam manter o riso e eram logo descobertas.
Aproveitando o facto de o tanque comunitário que havia na aldeia   estar quase sempre vazio, devido à falta de água que se sentia na época, um outro grupo de crianças brincava lá dentro. Ouvia-os dizer: "Dá-me lume" ao que o outro respondia "Vai àquela casa que te fume". Novamente se ouvia uma enorme berraria, enquanto trocavam de lugares.
O Agostinho, o Armindo, o Carlos,  os gémeos e outros rapazes jogavam à rolha. Às vezes desentendiam-se e acabavam à bulha mas, no dia seguinte, já estava tudo bem.
Eram jogos simples e não havia brinquedos, mas  as crianças gritavam e  riam entusiasmadas.
Eram outros tempos. Tempos de grandes dificuldades, mas as crianças da minha aldeia eram felizes. 



Obrigada pela visita. Volte sempre.


segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

O "Cobecas" I

No início do ano é vulgar nas nossas conversas cá de casa, fazerem-se rectrospectivas e programarem-se algumas coisas para o novo ano. Como 2011 se adivinha incerto, as conversas seguiram  rumo ao passado. É normal. Em casa ficaram só os mais entradotes porque os mais novos tinham ido passar o ano fora e, a partir de uma certa idade temos uma memória mais passada do que presente. A conversa levou-nos para a rua da minha infância, no bairro da Bica. Lá vivíamos quase como se vivia numa aldeia. Conhecia-se a vida uns dos outros, dava-se a salvação a quem por nós passava e, muitas vezes, viviam-se os problemas dos vizinhos como se de família se tratasse. Logo veio à baila o "Cobecas".
O"Cobecas" era o nome porque era conhecido um dos rapazes do meu bairro. Muito pequeno já se destacava dos outros, mesmo mais velhos,  pela sua vivacidade. Considerava-se o campeão da carica e do bilas lá da rua, mas aparecia, vezes sem conta, num grande pranto,  para fazer queixinhas à mãe, porque ficara sem os berlindes e sem o abafador.  
Os pais viam-se frequentemente em apuros pois ele nunca virava a cara a uma briga e, nem mesmo o tamanho dos rivais lhe metia medo. Claro que o resultado era voltar para casa a chorar, todo rasgado e, às vezes ferido. Tinha também  o hábito de andar na pendura  no elevador da Bica ou mesmo nos carros eléctricos. O elevador fazia um percurso pequeno, mas o 28, o eléctrico que passava no Calhariz, fazia um percurso muito grande. Por vezes, não se apercebia do passar das horas e só regressava pela noite dentro, tendo a mãe aflita,  posto o bairro em alvoroço, à procura dele.


(Imagem da revista Ilustração Portuguesa)

Muitas vezes, ouvia a voz da vizinha,  logo seguida pelas  dos diferentes vizinhos, gritar bem alto com voz desesperada:
- Ó Cobeeeecas!!! 
Eu já sabia. Ia haver tareia e castigo pela certa. Da tareia  ainda se livrava se  aparecesse a sangrar por ter caído do eléctrico ou do elevador. Aí a mãe já não tinha coragem de lhe bater, mas uma semana de castigo em casa, ninguém lhe tirava.
Era assim aquele rapaz, sobejamente conhecido por todos os habitantes do bairro, quase sempre pelas piores razões.


Obrigada pela sua visita. Volte sempre.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Recordações

A quadra festiva que atravessamos, em que a família e os amigos se juntam, é propícia a recordações. Umas boas outras menos boas, mas o que é certo é que por nós passam imagens do passado que fazem sorrir ou derramar uma lágrima que não conseguimos controlar.
Foi o que aconteceu comigo hoje. Lá fora chovia e eu, aqui em casa, fui acometida duma enorme nostalgia que me levou a recordar  os amigos e vizinhos com quem convivi na meninice.
Vi o prédio onde morava e ali, mesmo na minha frente, começaram a desfilar algumas das personagens que fizeram parte dessa época da minha vida.


Eu e os meus pais habitávamos o lado direito do rés-do- chão do prédio. Do lado esquerdo, a Deolinda, o Fernando e os três filhos (duas meninas e um rapaz) eram quase como nossa família. Separáva-nos o patamar da escada que servia de passagem para os andares superiores e também local de brincadeira com as meninas que habitavam no prédio. Nessa época as meninas tinham uma educação diferente da dos rapazes. Elas brincavam mais em casa, eles mais na rua. Assim, a Nanda e a Milú eram as minhas melhores amigas e delas restam apenas as recordações duma infância de dificuldades mas também de muita alegria. A Nanda foi acometida de uma doença fatal e a levou muito cedo. A Milú foi ama do meu filho nos dois primeiros anos de vida. Foi viver  para a Amadora pouco tempo depois de eu ter mudado para o Laranjeiro e perdi-lhe o rasto.
O primeiro andar era habitado pela D. Maria e o filho. A senhora era costureira e o filho estudava. Eu gostava muito de estar na sua companhia, admirando a forma hábil como ela fazia  vestidos maravilhosos e eu jurava a mim mesma que um dia usaria vestidos assim.
Mas, quando o filho deixou de estudar, conseguiu uma boa colocação nos caminhos-de-ferro em Angola e eles para lá partiram. Foi com grande tristeza que fui com a minha mãe despedir-me deles ao Cais da Rocha do Conde de Óbidos, onde o Vera Cruz os conduziu para um destino distante. Durante algum tempo, ainda trocou correspondência com os ex-vizinhos mas, aos poucos, foi escasseando até que deixámos de saber deles.
A inquilina do segundo andar era  viúva dum militar muito influente na época. Com ela moravam uma filha, mãe solteira, e uma neta mais ou menos da minha idade.
A casa era faustosa. Muito bem mobilada e com uns candeeiros que me magoavam a vista de tanto brilho, deixava-me maravilhada.
Dizia-se que tinham frequentado os salões da alta sociedade da época onde viveram  momentos de glória. Como na altura eram os homens que garantiam o sustento da casa, quando o senhor faleceu, a família entrou em decadência. No entanto, mantiveram sempre as aparências. Era vê-las a sair do prédio e subir a rua muito bem vestidas, desfilando as suas peles, de cabeça bem erguida,  irrepreensivelmente penteadas, aparentando um status que já não possuíam. Apesar de ser mãe solteira e ser alvo das conversas maldosas da vizinhança, a filha casou e abandonou o bairro levando consigo a família. No bairro, nunca mais se soube delas.
Finalmente, no terceiro andar moravam as pessoas mais idosas, a  D. Emília e o Sr. Maximino que eram naturais duma aldeia próxima da dos meus pais.  Entre as duas famílias existiu sempre uma grande cumplicidade e, como não tinham filhos,  a D. Emília  "adoptou-me". Passava muitas tardes em minha casa,  conversava com a minha mãe, fazia renda e  recordava os seus tempos de aldeia. Fazia-me as vontades todas e cheguei a ficar em sua casa, em alturas que os meus pais tinham que se deslocar à aldeia e eu não podia faltar às aulas. Após a reforma do Sr. Maximino, regressaram à aldeia natal, onde passaram o resto dos seus dias.
E, de recordação em recordação, a tarde foi passando e as imagens permaneceram no meu pensamento o resto do dia.


Obrigada pela sua visita. Volte sempre.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Viagens de Combóio


 
O dia amanheceu ensolarado o que me entusiasmou, pois tinha que ir a Lisboa. Como em muitas outras deslocações que faço à minha cidade não levei o automóvel, para evitar as filas de trânsito. Por isso, um sol agradável como o de hoje deu bastante jeito neste outono.
Desta vez, de entre as várias hipóteses que tenho para me deslocar para Lisboa, escolhi o combóio como meio de transporte.


Sentada numa moderna e confortável carruagem da Fertagus, olhando através da vidraça lembrei-me da das viagens de  combóio que  fazia em pequena, quando ia para a aldeia.   
E as recordações dum passado longínquo passaram pela minha cabeça. Então, como que num sonho, voltei a criança.
Já várias vezes referi que todos os anos eu passava a maior parte do Verão no Sobral Magro com os meus avós. Quando o meu pai não se podia ausentar da pastelaria, eu fazia a viagem  com o meu tio José Mendes, um tio muito querido de quem gostava muito mas que partiu muito cedo, deixando uma enorme saudade. Ele gostava de fazer a viagem  durante a noite, pois apanhávamos o combóio-correio  que seguia de Lisboa para o Porto,  na estação de Santa Apolónia, por volta da meia noite. Seguíamos na carruagem de Serpins,  a última do combóio que, em  Coimbra, era separada  e ligada a um outro  que seguia para a Lousã. Ali  apanhávamos  a camioneta para a Vide e saíamos em Avô, fazendo  o restante percurso  de táxi e a pé, chegando à aldeia de manhãzinha.
Lembro-me bem  duma das minhas primeiras viagens.
A carruagem era antiga e pouco confortável com bancos de madeira. O meu tio procurava que eu me sentasse junto à janela. Apesar do percurso ser feito durante a noite, ele achava que  ali eu me podia distrair mais. A carruagem enchia-se de pessoas e eu olhava para elas carregadas com malas, cestos e garrafões que arrumavam na prateleira sobre os bancos. Alguns homens traziam também violas, concertinas e outros instrumentos, o que me levava a pensar que iam para alguma festa, talvez como as que aconteciam na minha aldeia.
Após um sonoro apito, o combóio partia. Apesar de ser de noite, eu olhava lá para fora.  As luzes das povoações por onde passávamos sucediam-se e parecia que fugiam do combóio, alternando com o escuro da noite.
A viagem era longa e, ao fim dum tempo, algumas pessoas começavam a movimentar-se, ao mesmo tempo que um cheiro a comida inundava a carruagem. Puxavam dos cestos  e,  do seu interior, saiam garrafas e sacas de pano donde tiravam pão, nacos de presunto, chouriço, bacalhau frito e outros alimentos, que  comiam com  avidez intervalando com alguns golos de vinho que bebiam pela própria garrafa.
Eu observava-os completamente espantada e, enquanto a carruagem balançava, o combóio seguia o seu percurso e eu acabava por ser vencida  pelo sono.
Dormia pouco, porque depois de "bem comidos  e bem bebidos" havia sempre quem agarrasse nos instrumentos e iniciasse uma tocadeira, que acabaria por animar os passageiros durante o resto da viagem, tirando o sono aos mais sonolentos e cansados.
E era assim, entre comes e bebes, tocadeiras e cantorias  que chegávamos já de madrugada à estação da Lousã, onde abandonávamos o combóio para prosseguirmos a nossa viagem de camioneta.



A música que se ouvia hoje, no combóio onde eu seguia confortavelmente sentada  era outra, mas nos meus ouvidos ecoava ainda o som das concertinas e violas, que abrilhantavam as doces memórias da minha infância.

Fotos: Tiradas da Net


Obrigada pela sua visita. Volte sempre.
 
 

sábado, 23 de outubro de 2010

Memórias no Açor

A minha ligação com a serra vem desde muito cedo, pois os meus pais levavam-me para o Sobral Magro para passar os três meses de Verão com os meus avós. Eu sempre adorei esse período de tempo, longe do bulício da cidade, onde eu me sentia mais próxima da liberdade.
Era  ainda uma criança e, até lá chegar, tinha  que fazer um longo percurso a pé.
Quando ia com os meus pais, deixávamos o carro  em Pomares, ou às Almas do  Goulinho, que eram os locais mais próximos da povoação, onde chegava uma estrada. Lá tínhamos à nossa espera grande parte da família para nos ajudarem a transportar as bagagens que levávamos: malas, cestos e cabazes com vários produtos que não se comercializavam nas tabernas da aldeia.


Era um percurso penoso, mas que se vencia por entre as conversas que nos punham a par das notícias da aldeia. As saudades eram muitas e alegria do reencontro era grande.
No início da caminhada, eu ainda seguia animada com o carinho dos meus familiares mas, a partir de determinda altura,  desesperava.  As ervas do caminho faziam-me cócegas nas pernas e eu coçava-as.  As pedras escorregavam sob os meus pés e eu fazia um esforço enorme para não cair. De vez em quando, dava um pontapé numa pedra maior e eu refilava porque o caminho nunca mais acabava. Cansada, arrastava os pés pela terra do estreito caminho, levantando uma nuvem de poeira, que ia de encontro às pessoas carregadas que seguiam atrás de mim. Logo se seguia um raspanete dos meus pais tentando pôr-me na ordem e eu ficava para trás, amuada. 
Era sempre assim. Vencíamos outeiros e valeiros infindáveis, até ouvir lá ao longe, as horas a bater no relógio da  torre da capela, anunciando a proximidade da aldeia.
Então, o cansaço desaparecia e eu ganhava novas forças. Guiada pelos telhados de lousa da aldeia que se vislumbravam ao longe,  seguia indiferente às ervas, topadas e escorregadelas, passando à frente de toda a gente.
O final da caminhada estava próximo e, durante os três meses seguintes, eu seria livre. 



Obrigada pela sua visita. Volte sempre.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Crise/Dificuldades

A crise. Não se fala noutra coisa que não seja a crise. Nos últimos tempos temos sido bombardeados com este tema nos media, nas conversa de café, nos desabafos em casa. Ainda há poucos meses o nosso primeiro ministro contradizia o Mundo inteiro. Em Portugal estava tudo controlado. De um dia para o outro, não sei o que se passou, mas parece que se descontrolou tudo.
Como nunca gostei de política, não é por aí que eu vou entrar neste momento. Mas, quando dizem que a vida está difícil, logo me lembro do que são realmente as dificuldades. Todos temos direito de ambicionar uma vida melhor, mas também temos que fazer algo por isso. Mas dificuldades, dificuldades mesmo, eu ainda assisti nos meus tempos de menina e moça. E não preciso de sair do meu bairro por onde tenho andado a divagar nos últimos dias.

(Imagem da Net)
E, mais uma vez, vejo os meus vizinhos sentados nas escadinhas a brincar alegremente, ou jogando às escondidas, entrando com grande alarido, por uma travessa e saindo pela outra. Cruzando-se com outros três miúdos   subiam a rua também brincando e rindo , disputando qualquer  coisa que apanhavam do chão e guardavam numa saca. Uma delas, uma menina um pouco mais velhita, transportava um maço de papel à cabeça e outro debaixo dos magros bracitos.
Como os meus pais sempre me disseram  para eu não  apanhar nada do chão,  chamei a minha mãe. Então ela explicou-me que, aquelas crianças eram filhas dum casal que vivia com grandes dificuldades. O pai adoecera e não podia trabalhar e eles andavam a  apanhar beatas e papel para depois,  a troco  de alguns escudos,  pagarem algumas  despesas caseiras. À hora do almoço,  iam à igreja para a fila da sopa dos pobres para conseguirem alguma coisa que lhes matasse a fome.


Incrédula, olhava eles sem entender como é que crianças tão sofridas, podiam brincar, podiam rir, podiam aparentar felicidade da maneira  como eles o faziam.
Isso sim. Isso eram dificuldades. E são estas dificuldades que eu espero nunca mais voltarem a acontecer.




Obrigada pela sua visita. Volte sempre.


sexta-feira, 21 de maio de 2010

Memórias de Infância


Logo após o meu nascimento, os meus pais tentaram alugar uma casa nas imediações da pastelaria. Os tempos eram difíceis, poucas mulheres trabalhavam fora de casa e era difícil um homem ganhar o suficiente para pagar a renda da casa e alimentar a sua família condignamente. Além disso, com a aquisição da quota da Bijou, os meus pais ficaram com uma dívida que teriam também que pagar.
Mesmo assim, ponderados os prós e os contras, alugaram um pequeno apartamento numa rua próxima da pastelaria. Não havia necessidade de gastos com transportes. A minha mãe bem como as outras senhoras casadas com os outros sócios ajudavam, em casa, fazendo panos, aventais, atoalhados e na lavagem dos mesmos. Em épocas de maior intensidade de trabalho como eram os casos do Natal, da Páscoa e da compra de frutos para conserva, davam também uma ajuda na pastelaria.


- Foi neste prédio, no bairro da Bica, que fui criada -


Sempre que a minha mãe precisava de fazer compras deixava-me com o meu pai e, na Bijou, sentia-me acarinhada por todos. Os sócios eram para mim parte da minha  família e os empregados eram os meus amigos. Gostava muito de limpar tabuleiros, colocar as bases e as cintas nos aros dos bolos de arroz, de fazer caixas artesanais com papel manteiga,... 
 Na altura as pessoas começavam a trabalhar ainda muito novinhos e na Bijou  havia sempre um ou mais  rapazes, quase sempre oriundos da aldeia, que começavam desde cedo a aprender o ofício. Era com eles que eu passava os melhores momentos. Localizada numa das zonas históricas da cidade, rodeada de vários palacetes, a Bijou tinha uma clientela de elite. Esses rapazinhos tinham a seu cargo, entre outros trabalhos, a entrega ao domicílio de artigos que se vendiam na pastelaria e eu acompanhava-os frequentemente. Fora da vista dos patrões, eu era cúmplice das suas brincadeiras. Fazíamos  tropelias que ainda hoje me fazem corar e pensar como  é que as caixas chegavam inteiras ao seu destino.
Não tinha grandes brinquedos, não tinha ainda televisão,  mas qualquer coisa  servia para fazer uma brincadeira e era feliz assim. 
E foi assim  o meu início de vida, entre a minha casa e a Bijou.



Obrigada pela sua visita. Volte sempre.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Sabores da Aldeia

A natureza delicia-se na comida mais simples. Todos os animais,excepto o homem,comem um só prato.
( Joseph Addison)

Hoje o dia esteve novamente muito quente.  Se há dias atrás o frio convidava a passar o tempo no quentinho de casa, nos últimos dias já cheira a Verão e a férias na aldeia. Enquanto preparava o meu café, numa máquina de café-expresso, lembrei-me  das minhas férias na  aldeia, quando era ainda uma criança. Tudo era  diferente.
Logo de manhã, acordava esfomeada e corria para a cozinha onde a minha avó, sentada num banquinho de madeira,  ia colocando algumas malgas sobre  uma tripeça, onde já havia um naco de broa e um queijo fresco, ainda rodeado pelo acincho, acabadinho de sair da queijeira colocada no forro da casa.



Na fogueira, um púcaro de barro negro fumegava e exalava um cheirinho bom a café , o café da avó.
Dum dos  lados das cavacas em brasa, o feijão  fervia numa panela de ferro.  Do outro, num caldeiro  cozinhava-se a lavagem para os porcos.
Então, ainda ensonada, sentava-me e bebia a malga com café e comia uma fatia de broa com queijo. A minha avó esfarelava um naco de broa para a malga dela e misturava-lhe o café.
E ali ficávamos as duas a saborear a primeira refeição do dia, enquanto o meu avô e a minha tia trabalhavam no campo.


Obrigada pela sua visita. Volte sempre.


segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Carnaval à Porta I

Que ideia a de que no Carnaval as pessoas se mascaram. No Carnaval desmascaram-se.  
(Vergílio  Ferreira)


O Carnaval na grande cidade nunca me agradou mas, a partir de certa altura, os meus pais começaram a ir passar os dias  do carnaval à aldeia, onde esta época do ano era bem diferente, até no nome. Davam-lhe o nome de Entrudo.
E era aí, num meio pequeno, que eu me sentia livre pois éramos quase todos família e então já me davam permissão para andar pela rua com toda a gente. Juntava-me com os outros jóvens,  vestíamos  roupas velhas, colocávamos almofadas no peito e na barriga para parecermos mais gordos e púnhamos uma meia na cabeça, apenas com dois buracos no local dos olhos, para ninguém nos conhecer.
Ali, eu sentia-me feliz pois não havia princesas, nem fadas, nem ciganas, nem minhotas e nem sequer me lembrava mais da menina vestida de espanhola. Éramos todos igualmente feios, desajeitados,  trapalhões, irreverentes e divertíamo-nos de igual modo e de forma espontânea.
Percorríamos as ruas da povoação fazendo grande algazarra e   abríamos as portas das habitações,  pois na altura a chave estava sempre na fechadura, e tirávamos cacos lá para dentro tentando assustar  os  seus proprietários. No entanto, a maior parte das vezes, eles já estavam à espera dos entrudos e riam, batiam palmas e discutiam uns com os outros tentando descobrir quem eram os mascarados. Por vezes até ofereciam comida e bebida, que alguns aproveitavam. Enfarruscávamos quem apanhávamos desprevenido e assustávamos, com paus, aqueles com quem nos cruzávamos. 


Na altura, tudo era pretexto para um bailarico e o entrudo não fugia à regra.
Nos  grupos de foliões, havia sempre quem tocasse algum instrumento e, o dia  acabava sempre  num grande bailarico. Quando não havia quem tocasse, o baile não deixava de se realizar. Rapazes e raparigas dançavam modas de roda, ao som das belas e afinadas vozes que sempre existiram na terra.
Na minha aldeia, hoje quase deserta e envelhecida, já não se brinca ao Entrudo. Resta-nos apenas recordar e divulgar estas e outras tradições para que não caiam no esquecimento. É isso que tento fazer.




Obrigada pela sua visita. Volte sempre.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Carnaval à Porta

A vida é um "carnaval";Pena que de vez em "sempre" algumas máscaras caem...
(Paula Liron)

O Carnaval está à porta e já se sente, por todo o lado, o entusiasmo que esta festa desperta na maior parte das pessoas. Eu pessoalmente não gosto desta fase do ano.
Nasci e fui criada em Lisboa,  numa altura em que às meninas não eram permitidas certas liberdades, pois não ficava bem.  Morava no bairro da Bica, um bairro popular com ruas estreitas e escadinhas. Eu e outras  meninas, minhas vizinhas, passávamos o tempo livre à janela e, pelo Carnaval,   atirávamos serpentinas de janela para janela, dando um colorido, fora do habitual, às ruas. No entanto, logo  apareciam  grupos de rapazes que se divertiam a estragar os nossos enfeites. Traziam  saquinhos de serradura presos por um  cordel que atiravam  ao ar e rebentavam as serpentinas, por entre sonoras gargalhadas, gritando:
 - É Carnaval, ninguém leva a mal!
Nós  assistíamos revoltadas e inconsoláveis sem nada poder fazer. As ruas ficavam cobertas de serpentinas rasgadas que eles enrolavam e pontapeavam.
Mais tarde,  já mais velhinha, tinha obrigatoriamente que sair  para ir para a Escola. Nos dias que antecediam a semana do Carnaval, éramos de novo o alvo preferido da rapaziada que corria atrás de nós, de bisnaga em punho, encharcando-nos todas e atirando-nos farinha que empastava os nossos cabelos e vestuário. Se nos apanhavam distraídas enfiavam-nos um punhado de papelinhos na boca que quase nos sufocava. Outras vezes atiravam-nos   estalinhos e bichas de rabiar  que  nos apanhavam desprevenidas e  nos assustavam com o barulho faziam. Isto para não falar nas garrafinhas de mau cheiro, que atiravam pelas janelas, inundando as nossas casas com um odor insuportável.
Algumas das minhas vizinhas mascaravam-se com vistosos fatos, que depois as mães  levavam a desfilar pelas ruas. Da minha janela assistia ao desfile de  princesas, fadas, minhotas, ciganas, saloias, e tudo o que a imaginação e carteira dos pais podia comprar. E depois, aquela pequenita que passava junto à minha janela vestida de espanhola, era o meu sonho. O que eu gostava daquele vestido vermelho à bolinhas, das castanholas, da mantilha e do leque que ela orgulhosamente abanava.
Os meus pais,  pessoas humildes que lutavam por uma vida digna, não tinham possibilidades financeiras para fatos de Carnaval.   Como é que eu podia compreender a razão porque me mascaravam com roupas velhas da minha mãe, transformando-me numa figura desajeitada e trapalhona. Só mais tarde entendi que , para além das condições económicas, era  também essa a tradição da aldeia em que tinham nascido.
Cresci e algumas das minhas amigas organizavam assaltos, que eram bailes onde se ia devidamente mascarado e, por essa razão, muitas vezes intrometiam-se  pessoas que ninguém conhecia. No entanto, nem esses bailes eu podia frequentar.
Assim passava este tempo a ver o que se passava na rua, da minha janela.
E foi assim que o meu desamor pelo Carnaval foi crescendo ao longo da minha vida.


Obrigada pela sua visita. Volte sempre.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Dia de Reis

O costume é o mestre de todas as coisas.
(Júlio César)


Hoje é Dia de Reis e dia de comer bolo-Rei. 
Actualmente já não se comercializa em tão grande quantidade como acontecia há alguns anos atrás mas, no dia que hoje comemoramos, é indispensável na mesa dos portugueses.
Eu nunca fui muito apreciadora deste bolo pois não aprecio as frutas cristalizadas e, há muitos anos que em minha casa o bolo-rei não as tinha. Isto tem acontecido com muitas famílias e, passou a ser comum aparecer nas montras das pastelarias  um bolo idêntico, mas sem esses frutos, a que passou a dar-se o nome de bolo rainha.
No entanto,  o bolo-rei continua a reinar na quadra natalícia.



Lembro-me de alguns serões, uns tempos antes do Natal,  em que eu e os meus pais embrulhávamos os brindes, que mais tarde se  colocavam juntamente com a fava, na massa do bolo-rei, antes de ir ao forno.
Eram miniaturas metálicas que se enrolavam em pedacinhos de papel vegetal. Como eram pequenos objectos de que as crianças da época gostavam, muitas vezes a vizinha do apartamento do lado, vinha com os três filhos, ajudar.


Eram serões que me alegravam bastante, pois enquanto os mais novos brincavam com as pequeninas peças, os adultos narravam as  experiências vividas nesta quadra, nos seus tempos de criança.
Lembro-me também  quando se partia o bolo-rei, os mais novos tentavam espreitar todas as fatias, para ver se descobriam onde se encontrava o brinde. Era uma grande algazarra, pois os pais bem diziam que tínhamos que comer a fatia que nos calhasse em sorte, mas  nós queriamos uma onde se vislumbrasse qualquer indício de brinde. Já a fava ninguém a queria. Diziam que   aquele a quem ela saísse, teria que pagar o bolo-rei seguinte.
Actualmente,  os brindes no bolo-rei foram proibidos pelas directrizes da União Europeia, no entanto a simbologia e o sabor continuam os mesmos.
A propósito: - Vai uma fatia?





Obrigada pela sua visita. Volte sempre.